As consequências dos dois fortes terremotos que atingiram a Venezuela se transformaram em um grande teste para Delcy Rodríguez. À medida que seu mandato interino chega ao fim nesta sexta-feira (3), ela tenta evitar que a crise humanitária provocada pelo desastre se converta também em uma crise política.
Um dia depois de defender de forma enfática a atuação do governo no atendimento às vítimas, em sua primeira entrevista coletiva desde o desastre de 24 de junho, sua principal adversária política, a exilada e vencedora do Nobel da Paz María Corina Machado, fez um apelo para voltar ao país.
Falando do Panamá nesta sexta, Machado afirmou que a resposta do governo aos terremotos expôs fragilidades da administração e que seu retorno à Venezuela “contribui para facilitar o processo de transição, especialmente após a tragédia”.
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“Minha presença ajuda a estabilizar a situação; faz parte das forças de organização de que o país precisa em um momento em que ficou evidente a ausência quase total do Estado”, afirmou Machado, em referência às críticas de que a resposta oficial ao desastre foi lenta e desorganizada. “O país precisa de figuras em quem possa confiar.”
Segundo o governo venezuelano, os terremotos deixaram mais de 2.295 mortos e mais de 11 mil feridos. As autoridades, porém, não atualizam esses números desde quarta-feira. A oposição criou um banco de dados digital para localizar desaparecidos, que reúne atualmente mais de 36 mil pessoas ainda sem paradeiro conhecido. O partido de Machado também mobilizou voluntários para arrecadar doações na Venezuela e pediu apoio à diáspora venezuelana.
“Minha presença busca unir as pessoas, promover a união não apenas para enfrentar a emergência, mas também para cicatrizar essa ferida”, disse a líder opositora, impedida de disputar a eleição presidencial de 2024, na qual o ex-ditador Nicolás Maduro declarou vitória. Uma apuração independente conduzida pela oposição concluiu que o verdadeiro vencedor foi Edmundo González, candidato apoiado por Machado.
EUA elogiam Rodríguez e desencorajam retorno de Machado
Quando os terremotos ocorreram, Machado viu na tragédia uma oportunidade para voltar à Venezuela pela primeira vez desde que deixou o país, em dezembro do ano passado, para receber o Nobel da Paz, na Noruega. Desde que Maduro foi capturado pelos Estados Unidos em uma operação militar realizada em janeiro, a líder opositora defende seu retorno e a condução de uma transição democrática.
O governo do presidente Donald Trump, no entanto, passou a apoiar Delcy Rodríguez após a saída de Maduro do poder. Washington elogiou as reformas econômicas implementadas pela presidente interina, especialmente no setor petrolífero, e não estabeleceu um calendário para novas eleições.
Dois altos funcionários do governo americano, ouvidos pela Associated Press sob condição de anonimato por tratarem de conversas diplomáticas reservadas, afirmaram que a administração Trump passou a demonstrar frustração com Machado e tentou dissuadi-la de retornar à Venezuela após os terremotos.
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Segundo um desses funcionários, Machado chegou a pedir apoio a Washington para viajar à Venezuela a partir da ilha de Curaçao, território holandês no Caribe, e também do Panamá, onde está atualmente.
O segundo funcionário afirmou que os Estados Unidos avaliavam que Machado pretendia retornar para liderar protestos contra Rodríguez e pressionar por mudanças políticas em um momento em que o foco deveria estar na recuperação das áreas atingidas pelos terremotos. Ele acrescentou que Washington não poderia impedir o retorno da líder opositora, mas também não estava disposto a facilitar sua viagem.
Crise política se agrava na Venezuela
Ao tomar conhecimento da intenção de Machado de retornar ao país, Rodríguez determinou o fechamento do tráfego aéreo comercial para Caracas, segundo um dos funcionários americanos. De acordo com ele, os voos cancelados transportariam centenas de profissionais que participariam das operações de socorro às vítimas dos terremotos.
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Na segunda-feira, Machado afirmou que o governo havia fechado o espaço aéreo para impedir seu retorno, mas não apresentou provas. O governo venezuelano não respondeu aos pedidos de comentário sobre a acusação.
Em meio ao temor de que as críticas à resposta ao desastre enfraqueçam sua autoridade, Rodríguez afirmou na quinta-feira que as acusações fazem parte de “narrativas produzidas em laboratórios de propaganda”. Segundo ela, as equipes de resgate foram mobilizadas imediatamente e contavam com equipamentos adequados para atuar nas áreas atingidas. O relato contrasta com o de moradores que disseram ter passado as primeiras 48 horas procurando parentes soterrados sem apoio de equipes oficiais ou de máquinas pesadas.
“Essas operações de propaganda, motivadas por interesses político-partidários, são desprezíveis”, afirmou. “Não esperamos um, dois ou três dias. Agimos imediatamente.”
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Rodríguez acrescentou que milhares de agentes civis e militares participaram das operações de resgate, junto com 11 hospitais de campanha enviados por outros países. Segundo ela, o governo também criou um fundo para receber doações destinadas à reconstrução.
Nesta sexta-feira, a televisão estatal exibiu imagens da presidente interina visitando no hospital Hernán Alberto Gil Flores, vigilante de 43 anos resgatado de um subsolo desabado após sobreviver por quase oito dias sob os escombros. O resgate, realizado na quinta-feira, tornou-se um dos poucos momentos de esperança em meio a uma das maiores tragédias recentes do país.
Mandato interino chega ao fim
Pela Constituição venezuelana, ausências temporárias do presidente podem ser assumidas pelo vice-presidente por até 90 dias, prazo que pode ser prorrogado por mais 90 dias com autorização da Assembleia Nacional.
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Nesta sexta-feira, encerrou-se esse período de 180 dias. Até o momento, as autoridades venezuelanas não informaram quais medidas serão adotadas diante do fim do mandato interino de Rodríguez.
A Assembleia Nacional, controlada pelo partido da presidente interina, poderá convocar eleições antecipadas caso os parlamentares declarem o cargo de presidente definitivamente vago.
