A cena de Neymar discutindo com o goleiro depois do pênalti, já com um placar que, mesmo descontado, eliminava o Brasil da Copa, parece revelar um personagem incapaz de sair da frente do próprio espelho. Há pessoas que precisam ser protagonistas da vitória. Neymar parece precisar ser também do fracasso.
Por mais de um mês, Neymar cumpriu com rara disciplina a missão de ser coadjuvante.
Curiosamente, isso só foi possível porque estava machucado, distante do palco. Bastou voltar ao alcance dos refletores para reaparecer a necessidade quase física de ocupar o centro da cena. E, nesse caso, nem importava que o roteiro já estivesse escrito.
Há ali também um erro técnico e de gestão de Ancelotti, que lhe devolve um espaço em momento inapropriado do jogo, e do qual o time parecia ter aprendido a sobreviver sem depender. Mas Neymar faz questão de preenchê-lo inteiro. Quer a última palavra, o último gesto, a última imagem. Até quando tudo já acabou.
A impressão é a de alguém incapaz de permitir que o fracasso pertença aos outros. Como se existisse uma urgência em reivindicar para si até a fotografia da derrota. É como um ator que invade o palco durante os aplausos destinados a outra peça, apenas para garantir que a plateia continue olhando em sua direção.
No fundo, a discussão com o goleiro parece menos sobre um pênalti e mais sobre um vazio. Como se dissesse, em silêncio: “não deixem que o erro seja de outra pessoa! Ninguém pode fracassar melhor do que eu!”.
Há quem tenha medo de desaparecer no sucesso alheio. Neymar parece ter medo até de desaparecer no fracasso coletivo.
