Até IPCA+17%? Disparada de juros abre oportunidades e riscos na renda fixa

Até IPCA+17%? Disparada de juros abre oportunidades e riscos na renda fixa

O juro real acima de 8% ao ano transformou o Tesouro IPCA+ na estrela da renda fixa em 2026. As NTN-Bs romperam essa marca em junho, mas o movimento não ficou restrito aos títulos públicos: a abertura da curva contaminou também os papéis bancários e o crédito privado. E é fora do Tesouro Direto que alguns especialistas enxergam oportunidades – e armadilhas – no segundo semestre.

O cardápio é amplo. Para além dos títulos públicos, o investidor pessoa física encontra remuneração atrelada à inflação em CDBs, LCIs e LCAs, debêntures incentivadas, CRIs e CRAs, além de fundos de crédito privado com carteira indexada ao IPCA, lista Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital. Mas ele pondera que “o investidor precisa entender que o risco muda bastante de um produto para outro”.

CDBs de inflação

O substituto mais natural da NTN-B é o CDB atrelado ao IPCA, avalia Robson Casagrande, sócio da GT Capital. O título bancário oferece uma vantagem que o título público não tem, que é a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) até R$ 250 mil por CPF, ainda que se trate de riscos de natureza diferente, já que a NTN-B tem risco soberano.

As taxas acompanharam a alta dos títulos públicos. Os CDBs atrelados à inflação pagaram, em média, IPCA + 8,34% ao ano em junho nos papéis de 36 meses, com máximas próximas de IPCA + 9%, segundo levantamento da Quantum Finance. Nos prazos de 12 e 24 meses, as médias ficaram em IPCA + 7,94% e IPCA + 8,27%. O contraste com os pós-fixados ajuda a explicar o interesse, já que nos CDBs de 36 meses a taxa média atrelada ao CDI caiu de 100,71% da taxa de referência em maio para 100,08% em junho, e nos prazos intermediários a remuneração já roda abaixo do CDI.

Retornos de CDBs indexados à inflação de 31 de maio a 30 de junho de 2026
Prazo (meses) Taxa mínima Taxa média Taxa máxima Número de títulos
12 7,31% 7,94% 8,37% 59
24 7,36% 8,27% 8,97% 105
36 7,34% 8,34% 8,95% 155
Quantum Finance

Leia também: Vale comprar títulos prefixados agora? XP vê taxas altas, mas recomenda cautela

Os números dos CDBs de inflação podem encher os olhos, mas especialistas avisam que taxa alta não é sinônimo de bom negócio. “O carrego nominal ficou relevante, mas isso não significa que sejam automaticamente os melhores papéis para o investidor”, afirma Belitardo, lembrando que esses títulos carregam risco de prazo, de liquidez, de crédito do emissor e de marcação a mercado – a oscilação de preço que atinge quem vende antes do vencimento.

Continua depois da publicidade

Para Casagrande, a escolha depende do objetivo: o IPCA+ é eficiente para quem tem passivos longos, como aposentadoria, mas “não é uma resposta binária, é sobre encaixar o indexador ao horizonte e ao objetivo de cada investidor”.

LCIs e LCAs

Logo ao lado dos CDBs estão as Letras de Crédito Imobiliário e do Agronegócio, que somam à cobertura do FGC a isenção de Imposto de Renda para pessoa física. Jeff Patzlaff, planejador financeiro, faz a conta essencial para esse tipo de investimento: “uma LCA pagando IPCA + 6,50% limpos equivale, na prática, a um CDB tributado pagando na casa de IPCA + 8,0%”, diz, considerando a alíquota que incidiria sobre o CDB.

Mas não é tão simples encontrar ativos com esse nível de remuneração. Segundo a Quantum, as LCAs pagaram, em média, IPCA + 6,08% em junho, e a taxa máxima alcançou 6,58%. 

Continua depois da publicidade

Com o recuo das taxas, Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, pondera que os isentos tendem a vencer nos prazos curtos, enquanto nos longos os CDBs tributados podem sair na frente pelo efeito dos juros compostos sobre uma taxa bruta maior. Ou seja, o cálculo da equivalência entre os rendimentos deve ser ainda mais cuidadoso agora.

Leia também: Multimercados perdem até para a poupança em 2026: quando o martírio pode acabar?

Crédito privado

Para quem tolera mais risco, as debêntures incentivadas, os CRIs e os CRAs – todos isentos de IR, mas sem cobertura do FGC – completam o cardápio. Daniel Borges, CEO da Route Investimentos, vê nas debêntures incentivadas um dos melhores perfis de retorno líquido disponíveis à pessoa física, com spreads atrativos sobre os títulos públicos em diversos setores de infraestrutura. 

Continua depois da publicidade

Patzlaff cita empresas de infraestrutura, energia e agronegócio pagando prêmios relevantes sobre as NTN-Bs, também livres de imposto, para horizontes acima de oito anos. Entre as carteiras de crédito privado monitoradas pelo InfoMoney, há ao menos cinco debêntures recomendadas pagando até 8,15% isento, o que equivaleria a um papel tributado pagando cerca de IPCA+10%.

A ausência do FGC, porém, muda a análise. “Não basta observar a taxa. Em crédito privado, a assimetria quase sempre está na análise do risco, e não na remuneração”, resume Borges, citando garantias, subordinação, qualidade dos recebíveis e capacidade financeira do devedor como itens obrigatórios do checklist.

Soma-se a isso um momento de “seca” de CRAs no mercado, diante dos problemas de crédito no agro. Segundo dados do Anbima Data, com R$ 5,4 bilhões em 34 operações de janeiro a maio, as emissões de CRAs caíram à menor fatia da série entre os produtos de securitização: 6,6% do volume total, ante 19% no mesmo período de 2025.

Continua depois da publicidade

Leia também: Fundos captam R$ 184,7 bilhões no semestre, segundo melhor resultado em cinco anos

FI-Infra

Outra alternativa de aproveitar o alto nível de juros reais está nos fundos de investimento em infraestrutura, os FI-Infras. Listados em Bolsa, esses produtos são focados em geração de renda, porém trazem nas carteiras ativos indexados ao IPCA que também oferecem vantagem para quem mira o longo prazo, superando em diversos casos a barreira do IPCA+10% ao ano.

Essa taxa pode ser até maior. A Sparta diz estar aproveitando a janela para aumentar o carrego (prazo médio) da carteira do JURO11, um dos maiores fundos do segmento de FI-Infras. A estratégia abriria a possibilidade de elevar sensivelmente o rendimento da cota, de atuais IPCA+10% para IPCA+17%, desde que haja um alívio relevante na curva de juros, explicou em comunicação recente a diretora de Distribuição da Sparta, Natália Coura.

Mas será preciso paciência para obter retornos dessa magnitude. Quem já está alocado viu os dividendos minguarem recentemente: após um dividendo considerado modesto em junho, o JURO11 não distribuiu proventos em julho, devido à sua política de repassar apenas o que ultrapassar o alvo de R$ 100 por cota.

Leia também: Situação de títulos isentos terá que “ser enfrentada”, diz secretário do Tesouro

Onde mora o perigo

É justamente no crédito – e não na Bolsa – que Caio Tonet, diretor institucional da W1 Inc., enxerga o maior risco do semestre. Ele alerta para o investidor seduzido por papéis pagando IPCA + 10% de empresas que podem enfrentar dificuldade financeira. 

“O crédito privado é muito caso a caso, mas eu tomaria muito cuidado com as varejistas, principalmente as alavancadas”, afirma, citando também companhias aéreas, pelo descompasso entre custo em dólar e receita em real. Na outra ponta, ele prefere emissores geradores de caixa: energia, utilities e exportadoras.

Casagrande ainda usa a famosa frase “não existe almoço grátis” para lembrar que as maiores taxas costumam vir de instituições com maior risco, o que torna essencial evitar concentração em poucos emissores e alinhar o prazo do papel ao horizonte do investimento, já que boa parte desses títulos não tem liquidez diária.

Autor

  • Criador de Conteúdo | News Mudias

    Sou Murilo Vieira, criador de conteúdo especializado em tecnologia, games e dicas para o público digital. Com uma paixão por celulares, informática, esportes eletrônicos e jogos, compartilho informações úteis, análises detalhadas e recomendações para quem busca ficar por dentro do que há de mais recente nesses campos.

    Meu trabalho abrange desde os últimos lançamentos de celulares até dicas para quem joga games offline e PC leve, com o intuito de tornar a experiência de uso mais acessível e divertida. Além disso, faço conteúdo sobre os temas mais procurados, como Top 10, sempre trazendo algo novo e relevante.

    No News Mudias, o objetivo é fornecer um conteúdo diversificado e de fácil compreensão, com informações claras e objetivas. Meu compromisso é ajudar meus seguidores a se manterem informados, oferecendo o melhor em tecnologia e gaming de uma forma leve e interessante.

    Seja você um gamer, alguém buscando melhorar seu PC ou apenas curioso sobre as novidades da área de celulares, meus conteúdos são pensados para todas as suas necessidades!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *