O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou os bancos nesta semana pela baixa adesão ao programa Move Brasil. Em maio, uma Medida Provisória (MP) destinou R$ 30 bilhões para financiar com juros subsidiados a compra de carros novos por taxistas e motoristas de aplicativos. No mês seguinte, outra MP beneficiou entregadores, motociclistas e ciclistas cadastrados em plataformas digitais interessados em motocicletas, motonetas, ciclomotores flex e bicicletas elétricas. Desde que o mecanismo entrou em vigor, as contratações ficaram perto de R$ 3 bilhões. Num cenário otimista traçado pelo governo, chegarão a R$ 10 bilhões, mas uma previsão mais realista estima o crédito total entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões. Independentemente do número, a conclusão é inequívoca: o programa fracassou.
A preocupação de Lula com o ritmo do Move Brasil é puramente eleitoral. O programa não partiu de análise sobre demanda reprimida, excesso de estoques ou urgência de intervenção estatal para garantir empregos em momento de crise. A intenção foi tão somente eleitoreira. Prova disso é que a ideia saiu da Secretaria de Comunicação da Presidência. Com as eleições mais próximas, o governo busca uma resposta rápida para agradar essa faixa do eleitorado em geral resistente a Lula. Daí a crítica aos bancos. Basicamente, o governo quer que sejam negligentes na análise de crédito para aumentar os financiamentos. Não faz sentido.
O mau resultado do Move Brasil tem gerado briga no governo. A resposta da equipe econômica é marcada pela contradição. Ao público interno, faz questão de lembrar que criticava o programa no início. A interlocutores externos, diz que o ritmo fraco dos empréstimos prova que o impacto fiscal será pouco relevante. Mas é evidente que um programa de crédito eleitoreiro de R$ 30 bilhões provoca menos estrago quando é um fiasco. Isso não significa que a Fazenda tenha zelado pela responsabilidade fiscal.
O caráter eleitoreiro das iniciativas do Planalto fica ainda mais nítido no caso do Desenrola, programa de renegociação de dívidas que deveria acabar na segunda-feira, mas foi estendido até o fim de agosto, depois do início da campanha eleitoral. Trata-se de um programa popular que contribuiu para a recuperação da imagem de Lula, e, além do interesse eleitoral do governo, sua prorrogação também satisfaz à vontade dos endividados, ávidos por juros mais baixos. Mas isso em nada muda os danos que causará.
De maio, quando foi lançada a última edição do Desenrola, até dia 23, foram renegociados R$ 22 bilhões em dívidas. O alívio recorrente pune o bom pagador e cria incentivo à inadimplência, pois maus pagadores tendem doravante a esperar por algum socorro eleitoreiro. Fora isso, financiado por uma manobra contábil que se apropriou de recursos do Tesouro, o Desenrola terá impacto fiscal incontornável. E o desequilíbrio fiscal está entre as principais causas dos juros altos, que alimentam o endividamento do brasileiro. Apresentado como solução, o Desenrola só contribui para agravar o problema.
