
Vinte e dois líderes da União Europeia pediram, neste sábado, uma “videoconferência de urgência” dos ministros do Interior do bloco para discutir a crise migratória desencadeada pela entrada em massa de migrantes marroquinos em Ceuta, enclave espanhol no norte da África, onde ao menos 67 pessoas morreram nos últimos dias ao tentar chegar ao território da Espanha. Em uma carta aberta, os signatários afirmam que a resposta do bloco deve deixar claro que “travessias em massa” não podem transmitir a ideia de que é possível entrar ilegalmente na UE e posteriormente obter permanência legal.
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“Não podemos permitir que travessias em massa e descontroladas, a instrumentalização da migração ou outras ameaças híbridas deem a impressão de que é possível entrar ilegalmente na União Europeia. E que uma entrada ilegal possa depois se transformar em uma permanência legal”, afirmam os signatários.
O documento foi assinado por 22 dirigentes europeus, entre eles a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, e o chefe do governo da Alemanha, e reforça a pressão para uma resposta coordenada do bloco após a crise migratória que mobilizou governos e provocou tensões diplomáticas entre países europeus.
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A iniciativa ocorre no mesmo dia em que o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, enviou uma carta aos líderes das instituições da União Europeia criticando uma postura “egoísta” adotada por alguns parceiros do bloco em relação à crise.
“Uma atitude como essa — motivada por preconceitos, informações falsas, ignorância ou interesses políticos — não apenas contraria o direito europeu, o direito humanitário e os princípios de solidariedade que nos unem, como também vai contra os interesses de longo prazo da Europa”, escreveu Sánchez em uma carta enviada aos dirigentes das instituições europeias e consultada pela AFP.
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Sánchez também defendeu a realização de uma videoconferência dos ministros do Interior dos 27 países do bloco.
A crise ganhou dimensão política após a Itália anunciar a suspensão temporária da livre circulação com a Espanha no âmbito do Acordo de Schengen. Posteriormente, porém, o Ministério do Interior italiano esclareceu que os controles adicionais se limitarão a cidadãos de fora da União Europeia que chegarem da Espanha, sem afetar espanhóis que viajem para o país.
Neste sábado, o ministro do Interior da França, Laurent Nuñez, afirmou que está “totalmente descartado” que a Espanha deixe o espaço Schengen e ressaltou que Paris mantém uma cooperação “muito, muito, muito boa” com Madri. Ele acrescentou que o reforço dos controles na fronteira franco-espanhola permanecerá “pelo tempo que for necessário”.
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A crise começou após cerca de 60 mil migrantes atravessarem a fronteira entre Marrocos e Ceuta em apenas 24 horas, na quinta-feira, uma das maiores entradas já registradas no enclave espanhol de cerca de 84 mil habitantes. A maioria chegou nadando ou escalando as cercas da fronteira, composta por uma das duas únicas fronteiras terrestres entre a África e a União Europeia — a outra fica em Melilla.
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As imagens da chegada de milhares de pessoas provocaram forte repercussão no bloco, alimentando críticas de governos e de partidos da direita e da extrema direita à política migratória do governo do socialista Pedro Sánchez.
Em resposta, a Guarda Civil espanhola iniciou neste sábado a instalação de uma barreira flutuante de cerca de 500 metros na praia de Tarajal, principal ponto de entrada dos migrantes, para evitar novas travessias. Segundo as autoridades, a estrutura pneumática ficará entre 30 e 70 centímetros acima da água e se estenderá até um metro abaixo da superfície, com um canal destinado à circulação de embarcações de patrulha.
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Segundo jornalistas da AFP, Ceuta amanheceu coberta por uma intensa neblina, enquanto soldados e agentes da Guarda Civil foram vistos patrulhando a praia de Tarajal e escoltando grupos de jovens de volta à fronteira com o Marrocos.
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Segundo autoridades e relatos ouvidos pela Reuters, muitos dos migrantes decidiram atravessar a fronteira por dificuldades econômicas e após boatos disseminados nas redes sociais. Alguns dos que já retornavam ao Marrocos relataram frustração ao encontrar hostilidade, escassez de alimentos e poucas perspectivas em Ceuta.
— Eu queria ter uma vida melhor, mas aqui só encontrei fome e miséria. Queria me juntar à minha mãe na Espanha. Tudo estava fechado, inclusive os cafés. Um cigarro custava 2 euros, uma baguete custava 3 euros. Isso é demais — lamenta Brahim Karroubi.
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O ministro do Interior da Espanha, Fernando Grande-Marlaska, afirmou que a crise “ainda não pode ser considerada encerrada”, mas disse que a situação no enclave já voltou a um quadro de “razoável normalidade”. De acordo com ele, “quase todos” os migrantes que entraram em massa na quinta-feira já deixaram Ceuta, resultado de uma operação conduzida pela Espanha com a cooperação do Marrocos. Autoridades espanholas estimam que mais de 48 mil pessoas já retornaram ao país vizinho.
— Em menos de 48 horas, a situação em Ceuta já não tem nada a ver com a anterior, e a normalidade está sendo restabelecida — afirmou Grande-Marlaska durante entrevista coletiva na cidade.
(Com AFP)
