Um dado divulgado pelo Bradesco (BBDC4) junto ao balanço do segundo trimestre de 2026 (2T26) acendeu um sinal de alerta para o setor bancário e, especialmente, para o Banco do Brasil (BBAS3), na avaliação dos analistas do JPMorgan.
Em relatório publicado após os resultados do Bradesco, o banco americano destacou que cerca de 10% da carteira de crédito do John Deere Bank migrou da categoria Stage 1 (considerado de risco normal, em que os bancos provisionam apenas as perdas esperadas para os próximos 12 meses) para Stage 2 (risco aumentado, os bancos devem provisionar as perdas esperadas para toda a vida útil do contrato, elevando significativamente os custos de financiamento) apenas no segundo trimestre, indicando deterioração relevante da qualidade dos empréstimos ligados ao agronegócio.
Para o JPMorgan, o movimento tem implicações negativas para o Banco do Brasil, devido à elevada exposição da instituição ao setor rural. O banco estatal divulgará seus resultados no próximo dia 12.
O John Deere Bank atua com crédito voltado ao agronegócio e teve 50% de participação adquirida pelo Bradesco em 2024. Segundo os cálculos do JPMorgan, informações apresentadas pelo Bradesco indicam que aproximadamente R$ 1,7 bilhão em operações migraram de Stage 1 para Stage 2 durante o trimestre. Considerando uma carteira de crédito de R$ 17,4 bilhões no primeiro trimestre de 2026, isso significa que cerca de 9,6% do portfólio apresentou deterioração de risco em apenas três meses.
Leia mais:
Os analistas Yuri Fernandes, Guilherme Grespan e Fernanda Sayao classificaram o movimento como preocupante. Embora reconheçam que o segundo e o terceiro trimestres costumam concentrar pagamentos e renegociações no agronegócio, eles afirmam que a deterioração observada foi significativamente pior do que a registrada no ano passado.
Segundo o JPMorgan, a situação sugere que o agronegócio brasileiro atravessa um momento mais difícil do que em 2025. O banco também avalia que expectativas dos produtores em relação a novos programas de renegociação de dívidas podem ter contribuído para um efeito de “moral hazard”, reduzindo os incentivos para a regularização dos financiamentos no curto prazo.
Olhando para o efeito do BB, na visão do JPMorgan, os problemas identificados na carteira do John Deere Bank servem como um indicativo de que instituições com forte exposição ao agronegócio podem enfrentar pressões semelhantes. Nesse contexto, o Banco do Brasil aparece como o caso mais relevante, uma vez que o crédito rural representa cerca de 32% de sua carteira ampliada de empréstimos.
“Temos uma leitura negativa para o Banco do Brasil”, afirmam os analistas, acrescentando que o banco estatal deve enfrentar ventos contrários na carteira do agronegócio ao longo do segundo trimestre.
Continua depois da publicidade
A preocupação do mercado com a qualidade dos ativos rurais já vem crescendo nos últimos trimestres, em meio à combinação de juros elevados, preços mais baixos de algumas commodities agrícolas e aumento dos pedidos de recuperação judicial no setor.
O JPMorgan observa que, ao final de 2025, o John Deere Bank já possuía cerca de 1% da carteira em Stage 2 e 13% em Stage 3. Com a deterioração observada agora, a parcela de operações classificadas nos estágios mais problemáticos pode ter alcançado aproximadamente 24% do portfólio.
MP vai melhorar cenário?
Continua depois da publicidade
Apesar da avaliação cautelosa para o curto prazo, o banco vê possibilidade de melhora à frente.
Historicamente, segundo o relatório, parte das operações classificadas em Stage 2 tende a retornar para categorias de menor risco durante o segundo semestre, à medida que ocorrem cobranças, renegociações e recuperações de crédito.
Além disso, investidores acompanham os potenciais efeitos da MP 1376, medida voltada ao setor agropecuário que pode ajudar a reduzir parte da pressão financeira enfrentada pelos produtores rurais e, consequentemente, aliviar a inadimplência do segmento. O JPMorgan afirma que o mercado deposita expectativas de que a medida contribua para uma melhora do cenário já no terceiro trimestre.
Continua depois da publicidade

