Adversário da seleção brasileira nesta sexta, o técnico francês Sébastien Migné levou o Haiti de volta à Copa do Mundo depois de 52 anos e montou a equipe que está nos EUA. Mas, desde que assumiu a seleção, em março de 2024, o treinador de 53 anos nunca pisou no país que representa. A violência das gangues e a grave crise de segurança obrigam o treinador a comandar a equipe à distância.
Migné costuma morar nos países onde trabalha, mas não pôde repetir o hábito no novo emprego. Em entrevista à revista “France Football”, em 2025, afirmou que viajar para o Haiti era “impossível” e “perigoso demais”. Porto Príncipe e as principais vias de acesso à capital sofrem com confrontos, sequestros e bloqueios. O aeroporto internacional Toussaint Louverture também passou por sucessivos fechamentos e restrições depois que aviões comerciais foram atingidos por disparos, em novembro de 2024. Desde então, as ligações internacionais, especialmente com os Estados Unidos, permanecem severamente limitadas.
A violência também expulsou a seleção de casa. O Haiti não disputa uma partida da equipe principal em seu território desde 2021 e fez toda a campanha das eliminatórias para a Copa em campos neutros, principalmente em Curaçao. Outros compromissos e períodos de preparação foram espalhados por diferentes pontos do Caribe, como Barbados e Aruba. Até o Estádio Sylvio Cator, em Porto Príncipe, tradicional casa da seleção, foi ocupado por homens armados durante a escalada da crise, em março de 2024.
Sem poder acompanhar de perto o futebol local, Migné trabalha com o auxílio da federação haitiana e concentra sua observação nos atletas que atuam no exterior. O treinador chegou a estudar uma visita a Cap-Haïtien, no norte do país, onde a situação era considerada menos grave, mas o plano acabou abandonado por razões de segurança e logística. Assim, os encontros com os jogadores acontecem apenas nas datas reservadas às seleções, em concentrações organizadas fora do Haiti. O francês também reforçou o elenco ao convencer atletas da diáspora, nascidos ou formados em outros países, a defenderem a seleção de suas famílias.
O método improvisado produziu um resultado histórico. Em novembro de 2025, a vitória por 2 a 0 sobre a Nicarágua confirmou a segunda classificação haitiana para uma Copa do Mundo — a primeira desde 1974. O Haiti estreou no torneio com uma derrota por apenas 1 a 0 para a Escócia e agora enfrenta o Brasil tentando manter vivo o sonho de chegar à fase eliminatória. Na véspera do confronto, Migné disse que seria “uma loucura absoluta” no país se sua equipe derrotasse os pentacampeões. Mesmo sem conhecer pessoalmente o Haiti, o treinador sabe a dimensão que uma surpresa teria para a população que acompanha de longe.
