Falta tempo para ver o céu. Basta pôr os pés nas ruas — ou entrar num ônibus, num vagão de metrô, numa fila qualquer —, e logo se percebe a quase totalidade dos olhares curvada para baixo, sobre o azul de alguma tela na mão. Mas isso não é bem uma novidade. A ironia, como aponta a coreógrafa e bailarina Márcia Rubin, é que, ainda assim, as pessoas seguem obcecadas em “conquistar” o espaço sideral, esta enigmática arena de astros que paira acima das cabeças. “Como pode isso, né!?”, a artista se questiona, entre o riso e o espanto.
A indagação preenche as entrelinhas de “No entanto, ela se move”, espetáculo que marca a volta de Márcia aos tablados após um hiato de 15 anos — e que cumpre temporada até domingo no Sesc Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ao lado do ator Juracy de Oliveira, a carioca dá vida a figuras atentas, num universo em aceleração constante, às forças que sustentam e erodem as estrelas, os segundos, os dias, as peles, os poros. A dramaturgia de Pedro Kosovski, sob direção de Dadado de Freitas, apresenta histórias fragmentadas, que costuram as linguagens do teatro e da dança (e sobrepõem formas humanas e celestes) por meio de imagens simbólicas.
— A gente transita entre a palavra e o movimento, o “macro” e o “micro” e o universo total e a sala do teatro, num deslocamento espacial realizado de forma poética — detalha Márcia. — A proposta é ativar cabeças e corações para recuperar um “estar no mundo” com uma maior atenção para o que somos e para o que representa, afinal, estar vivo.
