ʽFaz as malas e volta para tua terraʼ

ʽFaz as malas e volta para tua terraʼ

A brasileira Jennifer Silva, 36 anos, contou ao Portugal Giro que foi despejada de um abrigo social em Aveiro. Ela e a filha Ana, de três anos, estão em uma pensão que custa metade do salário.

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Jennifer, natural de Belo Horizonte e que trabalha como empregada de limpeza, diz que recebeu sete dias de ultimato, que terminou em 6 de julho.

— Recebi mensagem dizendo que meus pertences seriam colocados em sacos e enviados para a pensão onde devo ficar por três noites a € 350 (R$ 2 mil), que é metade do meu salário — disse ela:

— Ainda espero que paguem pela hospedagem, mas ninguém se comprometeu e disseram que eu “recebo ordenado”.

Antes do despejo, Jennifer contou que foi vítima de racismo e xenofobia por hóspedes e em uma reunião interna que contou com representante da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Gênero (CIG).

Tudo começou quando ela decidiu fazer uma queixa no Livro de Reclamações, que em Portugal tem o peso de uma denúncia e pode demandar investigação e resposta oficial.

— Um dos participantes da reunião disse que em Portugal os direitos humanos são para os portugueses e o que se passa dentro das instituições não pode ser denunciado — disse ela, continuando:

— Contestei, perguntando que direitos humanos são estes? Disseram para eu ficar calada. E um dos participantes disse que, se eu não estiver satisfeita, “faz as malas e volta para tua terra”.

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Ela declarou que denunciou agressões físicas e psicológicas de outras mulheres atendidas no abrigo, que não teriam sido impedidas pelas funcionárias. Resolveu gravar para provar:

— Quando uma das mulheres atendidas pela casa percebeu que estava gravando as agressões que fazia ao filho, ela partiu para cima, mas foi parada. Outra vez, arremessou um copo.

“(…) violência psicológica acontece em frente da minha filha de três anos, que grita e me abraça pedindo que parem”, escreveu Jennifer na denúncia.

Jennifer tentava, segundo ela, proteger a filha. Disse que havia um cenário de consumo de drogas, além da violência contra outras crianças que afirmou ter presenciado:

— Nas festas, o álcool era liberado e as drogas entravam escondidas. Começaram a me ameaçar e implicar comigo porque eu não concordava, porque não fumava.

O pai de Jennifer é português e a brasileira conta que sofria racismo por causa da cor da pele.

— Foram dois anos dizendo que eu era babá da minha filha, que é branca. Tive depressão, ansiedade e engordei. Começaram a me chamar de gorda — declarou.

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Após a denúncia, Jennifer conta que passou a ser perseguida e recebeu a ordem e o posterior ultimato. Ela ficou até o limite da decisão, comunicada em reunião com a CIG.

— Os participantes da reunião ficaram rindo. E o representante da CIG, que investigaria a denúncia, disse que encerraria o caso, porque não daria em nada — afirmou a brasileira.

Antes de ser despejada, Jennifer conta que as funcionárias proibiram que ela ou a filha usassem a cozinha ou fossem servidas no jantar:

— Aqui não existem anjos ou demônios, não existem vítimas. Era o que diziam para mim.

O caso de despejo, que foi tratado como abandono pela instituição, segundo a brasileira, atraiu ofensas e apoio de brasileiros e portugueses, como da pesquisadora Carol Taner.

— Jennifer contou que estava sendo abusada dentro da instituição com comentários racistas, “volta para o teu país”, crianças das outras utentes chamando de negra — disse Taner:

— Muitas pessoas começaram a enviar mensagens relatando o mesmo. As diretoras abusam do poder — contou Taner, que publicou no Instagram uma denúncia de outra brasileira.

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Jennifer denunciou à maternidade ter sofrido violência doméstica do pai da sua filha, que conheceu em 2021. O hospital fez queixa dele à polícia, disse ela.

Ela e o companheiro moravam na casa da mãe dele no Porto, de onde resolveu sair para viver em um apartamento de um quarto após ser agredida.

A brasileira pagava aluguel com o salário que ganhava de uma agência que organizava assistência a idosos. Ela emigrou para Portugal em dezembro de 2020 e logo trabalhou como cuidadora.

O paciente pelo qual Jennifer era responsável morreu e ela ficou sem trabalho. A solução encontrada foi recorrer ao abrigo, para onde foi com a filha em janeiro de 2023.

O abrigo se identifica como Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) e ONG sem fins lucrativos.

Entre outras funções sociais, faz o “acolhimento e prestação de serviços de apoio à reestruturação dos projetos de vida de mulheres vítimas de violência doméstica e seus filhos menores”.

Procurados, o abrigo e a CIG não responderam.

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