Passei boa parte do dia disposto a escrever sobre os derrotados. Havia uma coluna quase pronta na cabeça, dessas que observam o jogador caído no gramado, o choro, a mão do adversário no ombro e encontram alguma beleza onde ninguém queria estar. Brasil e Paraguai, porém, tiveram a falta de delicadeza de tornar a felicidade muito mais interessante. O mata-mata, como costuma fazer, eliminou meu texto antes que ele entrasse nesta forma.
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A fase de grupos tem lá seus encantos. Há jogo no almoço, no lanche, no jantar e, dependendo do fuso e da falta de amor próprio, depois da meia-noite. Descobrimos países, fazemos contas que exigiriam reforço do Ministério da Fazenda. Mas, numa Copa em que 32 de 48 seleções avançam, muita coisa vem com rede de proteção.
A Copa começou mesmo quando o Japão fez 1 a 0 e o medo de ir embora sentou-se com a gente no sofá. Contra o Marrocos, na estreia, a gente até ensaia uma preocupação, consulta a tabela, diz que o time precisa melhorar. No mata-mata, não existe projeção para a rodada seguinte: existe a possibilidade muito concreta de fechar a mala. Mas aí vem o Brasil, que vira no que era para ser o último minuto, e a comemoração tem a alegria de quem consegue tirar a bagagem do porta-malas cinco segundos antes de o táxi arrancar.
Depois vieram Alemanha e Paraguai, um encontro de universos que causava a mesma estranheza de quando Chaves e Chapolin apareciam juntos. De um lado, a Alemanha, com Neuer, Kimmich, jogadores de Champions e a pompa de quem parece chegar ao estádio acompanhada por uma comissão da União Europeia. Do outro, o Paraguai, que, mesmo tendo bons jogadores, conserva a aparência de uma seleção formada por atletas que passaram, passam ou ainda passarão por algum clube instalado entre o 8º e o 14º lugar do Campeonato Brasileiro. Um compiladão dos melhores da semana de uma rodada qualquer da Sul-Americana.
É impossível não torcer por esses homens. Em pouco tempo, o lateral paraguaio de nome familiar se torna próximo; o volante parece aquele sujeito que já foi expulso contra o Fortaleza numa quinta às 19h; o goleiro, o grande Orlando, passa a ser tratado pelo primeiro nome, como se frequentasse o mesmo bar. A Alemanha é uma instituição. Fria e distante. O Paraguai é um grupo de WhatsApp. Não se conhece todo mundo que está lá , mas há certa intimidade no ar. E o grupo de WhatsApp, contra todas as recomendações, sobreviveu.
O jogo foi chato, o que só melhora a defesa do mata-mata. Nem toda partida precisa ser boa quando pode ser fatal. Durante 120 minutos, a Alemanha e (principalmente, convenhamos) o Paraguai fizeram o futebol andar de um lado para o outro com a disposição de quem procura uma vaga em estacionamento de supermercado. Bastou chegar aos pênaltis para milhões de pessoas descobrirem superstições que não tinham dez minutos antes. O mata-mata não garante espetáculo. Garante que, por noventa, cento e vinte minutos ou mais, o coração desaprenda a ficar quieto.
A ampliação da Copa nos deu uma rodada a mais desses jogos. Se o 16 avos de final é horrível no nome, é ótimo no conceito: favoritos assustados, seleções adotadas por uma tarde, cobranças que ninguém tem coragem de ver e heróis que talvez daqui a seis meses estejam marcando o ponta do Bragantino. Ainda teremos mundos paralelos pela frente. Minha coluna sobre os derrotados pode esperar. Agora que a Copa finalmente começou, quem foi derrotado que trate de escrever sobre a beleza de perder. Até aqui, não tenho lugar de fala.
