Disparada do petróleo não altera perspectiva da inflação de julho. Persistência no novo patamar reduziria chance de alívio

Disparada do petróleo não altera perspectiva da inflação de julho. Persistência no novo patamar reduziria chance de alívio

A disparada da cotação do petróleo — que levou o barril do Brent a ultrapassar os US$ 95 nesta quarta-feira — não deve ter tempo suficiente para influenciar a inflação de julho. A estimativa é de que o IPCA do mês fique em 0,17%, praticamente estável em relação aos 0,16% registrados em junho, afirma André Braz, coordenador dos Índices de Preços do FGV Ibre. Para agosto, a projeção de Braz era de uma desaceleração ainda maior, para 0,06%. Esse cenário, porém, pode mudar caso o petróleo permaneça em um patamar elevado por várias semanas. Nesse caso, uma nova onda de reajustes começaria a aparecer nos índices de preços em cerca de 30 dias e poderia inclusive afetar a trajetória dos juros.

— Uma alta por poucos dias produz pouco efeito. Já várias semanas de petróleo e dólar elevados aumentariam bastante a probabilidade de reajustes e poderiam, inclusive, retardar a queda dos juros. O Brent chegou hoje à região de US$ 95, refletindo o aumento do risco geopolítico. Isso significa que a perspectiva de alívio para a inflação ficaria ameaçada, mas tudo dependerá da persistência desse movimento — explica o economista.

Por enquanto, no entanto, Braz não vê perspectiva de uma alta generalizada de preços provocada pelo petróleo.

— O petróleo já esteve em um patamar mais elevado, no momento mais crítico do conflito. Na ocasião, encareceu matérias-primas em vários segmentos e, quando o preço recuou, isso não se traduziu em quedas generalizadas. Ou seja, o efeito da primeira alta não foi integralmente devolvido. O que essas novas elevações devem fazer é interromper a queda dos preços que começavam a ceder, estabilizando-os em um nível mais alto. Mas não vejo, neste momento, novos aumentos generalizados. A recomposição para os preços anteriores será interrompida até que haja uma nova estabilização — avalia.

Especialistas do setor de petróleo, como mostrou o blog, avaliam que o mercado atravessa um período de forte volatilidade, mas ainda não enxergam esses picos como um novo preço médio para o barril. Essa volatilidade, ressalta Braz, dificulta estimativas mais precisas sobre o impacto na inflação. Ele explica que, para o Brasil, o que importa é o preço do petróleo convertido em reais. Ou seja, o impacto depende da combinação entre a cotação internacional do barril e a taxa de câmbio.

Ao desenhar um cenário extremo, Braz afirma que, se o barril subir dos cerca de US$ 90 observados nesta quarta-feira para US$ 120, a alta será de aproximadamente 33%. Se, ao mesmo tempo, o dólar avançar 5%, o custo do petróleo em reais aumentaria perto de 40%. Esse aumento, porém, não chega integralmente ao consumidor, pois depende da duração do choque, da política de preços da Petrobras, da carga tributária e das margens de distribuição e revenda. Ainda assim, em um cenário dessa magnitude, o impacto sobre a inflação poderia alcançar até 0,6 ponto percentual, calcula Braz.

— O primeiro impacto apareceria nos combustíveis, especialmente gasolina, diesel, gás de cozinha e passagens aéreas. Depois viriam os efeitos indiretos: o diesel encarece o transporte de cargas e pode pressionar os preços de alimentos, produtos industriais e serviços. Um câmbio mais alto também afeta medicamentos, eletrônicos, insumos agrícolas e outros produtos importados. Em uma simulação ainda bastante preliminar, se o petróleo permanecesse próximo de US$ 120 e houvesse um repasse relevante para os combustíveis, o impacto direto sobre a inflação poderia ficar entre 0,3 e 0,6 ponto percentual. O efeito total poderia ser ainda maior ao considerar o transporte e os custos de produção — estima Braz, num exercício para o pior cenário.

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