Lisa Kudrow ainda é muito lembrada pela Phoebe de “Friends” (leia aqui). Agora, está indicada ao próximo Emmy por Valerie Cherish, sua personagem em “The comeback”. A terceira temporada da produção chegou à HBO depois de um hiato de doze anos.
Tudo nessa série emana originalidade, até o seu, digamos, calendário. Ela estreou em 2005 e acabou cancelada. Em 2014, voltou. Agora, são oito novos episódios de cerca de meia hora. O formato também é difícil de classificar. A comédia paira em tudo, mas várias linguagens se sobrepõem e dialogam entre si numa dinâmica interessante. O roteiro alterna chaves narrativas, do reality à sátira, passando pelo drama e pelo realismo. Tudo isso sempre com muitas citações à cultura pop.
Valerie é uma figura melancólica. Interpretou o papel principal em uma sitcom no fim dos anos 1980 e início dos 1990 e ficou famosa. Depois disso, sua projeção foi encolhendo. Não que tenha caído no total ostracismo, mas perdeu o posto de estrela, algo comum no universo dos sucessos efêmeros produzidos pela televisão.
As novas gerações já não a conhecem. O anonimato é um sofrimento para a ex-atriz, que também não se conforma com a idade (ela tem 60 anos) e com o apetite de Hollywood por jovens beldades.
Na primeira temporada, em 2005, além de tentar a sorte em outra sitcom, ela fez um reality sobre o próprio cotidiano, uma espécie de crônica de sua volta ao mercado. Nada deu muito certo. A segunda temporada foi ainda mais longe e Valerie tentou emplacar um projeto numa rede de televisão enquanto “The comeback” se aprofundou no mockumentary, no drama e no humor. O final foi feliz.
Agora, uma nova personagem entra na história, marcando a sintonia com o espírito de 2026: Patience (Ella Stiller, filha de Ben Stiller). Ela gerencia as redes sociais de Valerie. Com um ar sempre entediado, grava cada passo da chefe. Sua presença é uma crítica mordaz à multiplicação de influencers que registram seus próprios cotidianos para fazerem seus “auto-realities”.
Os interregnos entre as temporadas acabaram provocando esse efeito muito interessante de espelhar diferentes momentos do showbiz. A era das sitcoms passou. Depois, vieram a ascensão dos realities e a dominação do digital. A trama satiriza com coragem o universo do entretenimento. Há metalinguagem em tudo (lembrei de “The Studio”, tem crítica dela aqui).
Quando a nova temporada começa, Valerie está tentando uma carreira na Broadway. Consegue um papel em “Chicago”, só que nunca assistiu ao musical e os atores de teatro a desprezam e esnobam. Ela abandona o projeto. Tenta então lançar um podcast, outra plataforma em alta. Não tem êxito. Assim, vai esbarrando nos desafios e nas armadilhas que a profissão impõe em 2026. Até que chegamos à era do temor da extinção dos roteiristas profissionais com a invasão da Inteligência Artificial. Vale conferir.
