A redução da taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual — de 14,25% para 14% — anunciada ontem pelo Comitê de Política Monetária (Copom) já era amplamente esperada. Depois de um comunicado que gerou polêmica na reunião anterior, desta vez o Banco Central divulgou um texto mais direto e enxuto, no qual reafirma que a magnitude total do ciclo de flexibilização monetária — ou seja, o quanto a Selic ainda poderá cair — dependerá das novas informações que surgirem e com recados claros ao governo sobre os efeitos das medidas de estímulo à economia e à política fiscal sobre a trajetória dos juros. Em “coponês”, a mensagem é simples: o BC vai esperar os próximos dados antes de decidir se reduzirá novamente a taxa de juros na reunião de setembro. Não assumiu compromisso com um novo corte, mas deixou essa possibilidade em aberto.
Este foi o quarto corte consecutivo da Selic. Somadas, as reduções levaram a taxa de 15% para 14%, um ciclo longo para uma queda de apenas um ponto percentual. A trajetória esperada para este ano, no entanto, era bem mais intensa: o mercado projetava encerrar 2026 com a Selic em 11%. Esse movimento foi interrompido pela Guerra no Oriente Médio, que elevou o grau de incerteza internacional, levou o preço do petróleo a superar US$ 100 por barril em alguns momentos e aumentou a pressão sobre a inflação.
A redução da Selic é técnica. O Banco Central ao definir a taxa básica de juros está olhando para o primeiro trimestre de 2028, quando a inflação prevista é de 3,2%, alinhada ao centro da meta que é 3%.
No comunicado o BC manda recados ao governo. Estímulos à economia, como programas de incentivo à troca de carros e motocicletas por motoristas de aplicativos, podem dificultar o processo de redução dos juros. Evidentemente, o Copom não afirma isso de forma explícita — esta é a tradução para o português corrente —, mas o recado é que medidas de estímulo à demanda podem criar obstáculos adicionais ao ciclo de afrouxamento monetário.
O Banco Central também reforçou que continua atento à política fiscal, já que ela influencia o custo de financiamento da dívida pública e as condições financeiras da economia. Recentemente, como mostramos aqui, o mercado passou a exigir juros mais altos para financiar os títulos públicos, um sinal de preocupação com as contas do governo.
O comunicado deixa claro que houve melhora suficiente no cenário para justificar o corte, mas está longe de indicar que a situação esteja totalmente sob controle. A taxa básica continua muito elevada: 14% para uma inflação de 4,6% acumulada em 12 meses, ainda acima do teto da meta, embora em trajetória de desaceleração.
A cautela deve continuar dando o tom da próxima reunião, em setembro. Aliás, se retirarmos essa palavra do vocabulário, fica difícil escrever um comunicado do Banco Central. Ela continua sendo a marca registrada do Copom.
