Uma final entre cabeça e coração. Se, de um lado, a decisão da Copa do Mundo terá a organização tática e eficiência espanhola, do outro estará a emoção argentina. Os hermanos buscaram a vaga na disputa pelo bicampeonato — e tetra no total — seguindo o mesmo o roteiro de sua caminhada no torneio até então: sem se render diante da iminente derrota e buscando uma reação num momento em que só sua apaixonada torcida ainda acreditava. Os 2 a 1 sobre a Inglaterra, em Atlanta (mesmo estádio em que já haviam virado sobre o Egito), mostraram que resiliência não é sinônimo de frieza.
— Esta gente nos levou a ganhar a partida — disse o técnico Lionel Scaloni, numa frase que resume a importância do componente emocional. — Esta camisa exige que se entregue tudo até o fim, não se guarde nada. E os jogadores demonstraram mais uma vez que sentem isso como todos.
Desde antes da bola rolar já estava claro que a partida tinha uma temperatura diferente. Para os hermanos, Argentina x Inglaterra envolve nacionalismo, orgulho e identidade. Tudo isso, claro, por causa da disputa em torno das Malvinas.
O esquema de segurança para este jogo foi reforçado. Havia muitas viaturas e agentes fortemente armados no entorno do estádio. Mas não houve registros de confusões.
O momento mais delicado foi quando a torcida argentina não respeitou o hino da Inglaterra e cantou sua música que diz “quem não pula é um inglês”. Os jogadores britânicos se incomodaram. Mas ficou por aí.
Ao final do jogo, foi a vez dos próprios atletas provocarem. Vários deles correram em direção à torcida e brincaram pedindo um minuto de silêncio para os ingleses. Apesar da proibição da Fifa, uma bandeira com a inscrição “As Malvinas são argentinas” saiu da arquibancada e foi parar nas mãos dos atletas, que a esticaram e, depois, a deixaram estendida no gramado. Messi não participou.
Todo este clima se refletiu em campo. O primeiro tempo foi marcado por forte tensão. Foram poucas chances para cada lado e muito empurra-empurra. A Inglaterra pressionou a saída do rival, mas não teve sucesso em furar sua marcação.
A disputa efetivamente ocorreu no segundo tempo, quando Scaloni entendeu que o time precisava ser mais impositivo. Com mais trocas de passe e avançando em bloco, os argentinos empurraram a Inglaterra contra sua própria área. Mas acabaram se expondo e levaram o gol, aos 9, em contra-ataque iniciado por Harry Kane e concluído por Anthony Gordon.
Só que o gol foi a senha para os ingleses, já cansados, se fecharem de vez. Pagaram caro. O time de Tuchel foi fuzilado pelos argentinos, que, na etapa final, tiveram 72% de posse e finalizaram 13 vezes (contra apenas quatro dos britânicos).
—Eles cansaram. Pressionaram por 60 minutos. Depois, não conseguiram mais. Quando fizeram o gol, recuaram e nos deram tranquilidade para mover a bola — disse Lautaro Martinez.
A Inglaterra não estava preparada para ser atacada como foi. Principalmente diante de um rival que não deixa de acreditar mesmo quando, a cinco minutos do fim, ainda está atrás do placar. Aos 40, Enzo Fernandez empatou num chute de fora da área. Aos 46, o próprio Lautaro concluiu, de cabeça, o cruzamento de Messi.
Mais uma vez, o “futebol não está voltando para casa”, como cantam os ingleses. E, de novo, a Argentina está numa final. Por Messi, por Diego Maradona e pelas Malvinas.
