Depois da reunião na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) anunciou o terceiro corte consecutivo da taxa básica de juros, a Selic, de 14,5% para 14,25% ao ano. A decisão era esperada, mas o comunicado divulgado em seguida gerou ruído. Mudanças na Selic são extremamente importantes para as projeções e expectativas do mercado financeiro, mas não têm consequências imediatas na economia. Quando muda a Selic, o Copom calcula os efeitos num período conhecido como “horizonte relevante”, intervalo de 18 meses, hoje com duração até o quarto trimestre de 2027. Ao mencionar o primeiro trimestre de 2028, porém, o comunicado causou estranheza. Por que a autoridade monetária teve de alongar o prazo de modo a justificar o corte nos juros? Teria sido falta de cautela com a inflação?
Ante os questionamentos, aumentou a expectativa com a ata da reunião, divulgada nesta terça-feira. O texto da ata não desfez as interrogações do mercado sobre o rumo da política monetária. Para os analistas, ficou difícil prever se na próxima reunião o Copom manterá a Selic em 14,25%, interrompendo o atual ciclo de queda, ou se prosseguirá nos cortes dependendo das condições.
Desde o ano passado, a meta de inflação passou a ser avaliada pelo IPCA acumulado em 12 meses. Ela só é considerada descumprida se o índice ficar por seis meses consecutivos fora do intervalo de tolerância — a faixa de 1,5% a 4,5%, com centro em 3%. Atualmente, esse índice está em 4,72%, e a última previsão dos economistas ouvidos pelo BC o situa em 4,15% no final de 2027. Por isso alguns analistas esperavam que não houvesse corte na Selic.
Na ata, o Copom reconhece a deterioração inflacionária, mas descreve um quadro ligeiramente diferente. Com base nas projeções para 2028, argumenta que, pelos seus cálculos, a inflação acumulada no quarto trimestre de 2027 estará em 3,7%, mais perto do centro da meta. Por isso afirma ter julgado “como mais adequadas, neste momento, trajetórias de Selic menos discrepantes” das preconizadas pelo mercado “por evitarem induzir volatilidade excessiva nos preços dos ativos financeiros e agregados macroeconômicos”. Defende não reagir “integralmente a variações de preços decorrentes de choques de oferta, que no momento atual incluem incertezas relevantes”. E cita o conflito no Oriente Médio e o fenômeno climático El Niño.
Embora o próprio Copom reconheça a nova realidade inflacionária, aparentemente julgou prematuro anunciar o fim do ciclo de queda, diante da incerteza que poderia justificar novo corte mais diante. É perfeitamente defensável, como argumenta a ata, evitar flutuações abruptas na Selic. Faltou, porém, mais transparência à forma como o Copom justificou a decisão. A mensagem parece defender uma convergência mais lenta à meta, daí o “horizonte relevante” ter se estendido além dos 18 meses de praxe. Só que a justificativa não ficou explícita. Nada disso significa que o BC tenha se tornado mais leniente com a inflação ou sido motivado pelo calendário eleitoral. Apenas que pecou por falta de clareza. Para reduzir os ruídos, o Copom terá doravante de ser mais explícito sobre como vê a política monetária com “momentos de pausa e retomada do ciclo de calibração”.
