Se você passou algum tempo nas redes sociais nos últimos anos, provavelmente já se deparou com um vídeo curioso: três jogadores da seleção japonesa enfrentando 100 crianças em um campo de futebol oficial.
À primeira vista, a proposta parece apenas uma brincadeira. Mas, às vésperas do confronto entre Japão e Brasil pelos 32 avos de final da Copa do Mundo, a cena voltou a circular porque resume, de forma surpreendente, a identidade construída pela seleção japonesa.
No desafio, Hotaru Yamaguchi, Hiroshi Kiyotake e Yosuke Ideguchi conseguem trocar passes por vários minutos diante da multidão de pequenos adversários. O segredo não está em dribles espetaculares nem em velocidade acima da média. A explicação é muito mais simples: as crianças são naturalmente atraídas para o lado onde está a bola, enquanto os três jogadores exploram constantemente o espaço vazio do outro lado do campo.
É exatamente essa lógica que define o Japão de Hajime Moriyasu. A seleção asiática atua em um sistema 3-4-3 que, na prática, transforma o ataque em uma linha de cinco jogadores. A circulação rápida da bola atrai a marcação para um setor e cria espaços para inversões longas, encontrando um companheiro livre na segunda trave ou no corredor oposto.
O movimento é repetido durante toda a partida e se tornou uma das principais marcas da equipe.
Os alas exercem papel fundamental nesse mecanismo. Ritsu Doan, pela direita, é canhoto. Keito Nakamura, pela esquerda, é destro. Em vez de apenas chegarem à linha de fundo, ambos costumam cortar para dentro, participar da construção e inverter rapidamente o lado da jogada, confundindo a marcação adversária.
A ideia apareceu diversas vezes nesta Copa.
No empate por 1 a 1 com a Suécia, por exemplo, um lance no início do segundo tempo resumiu a filosofia japonesa. Após uma jogada construída pela direita, a defesa afastou parcialmente a bola. O volante Ao Tanaka recuperou a posse e imediatamente encontrou Daichi Kamada completamente livre do lado esquerdo da área. A finalização foi defendida, mas a construção da jogada mostrou o que o Japão busca durante os 90 minutos: encontrar sempre um homem sem marcação no lado oposto.
É justamente essa característica que desperta atenção antes do duelo com o Brasil.
A principal vulnerabilidade da equipe de Carlo Ancelotti aparece pelos lados do campo. Enquanto Marquinhos e Gabriel oferecem segurança pelo centro da defesa, os laterais podem ser constantemente colocados à prova pelas inversões rápidas e pelos movimentos dos alas japoneses.
Outros adversários já precisaram adaptar sua estrutura para conter esse tipo de ataque. Contra a Holanda, por exemplo, Frenkie de Jong recuou diversas vezes para formar uma linha de cinco defensores, permitindo que os laterais acompanhassem os jogadores abertos do Japão.
A dúvida é se o Brasil fará ajuste semelhante ou tentará neutralizar a estratégia apenas com sua linha defensiva habitual.
Mais do que uma disputa por uma vaga nas oitavas de final, o confronto representa um teste para uma seleção japonesa que há anos é apontada como a principal força emergente fora dos tradicionais centros do futebol mundial.
