O escritor chileno Alberto Fuguet, certa vez, fotografou discretamente dois garotos que compartilhavam fones de ouvido, durante uma viagem de metrô em Santiago. O que hoje é uma cena comum seria improvável e até condenável há 40 anos, especialmente porque o Chile vivia sob uma rígida ditadura militar. Foi o que pensou o autor que, inspirado pelos dois rapazes, escreveu seu romance mais autobiográfico, “Certos garotos”, lançado em 2024 e agora traduzido para o português.
A trama se passa na capital chilena em 1986, durante a ditadura do general Augusto Pinochet, que impôs toque de recolher além de disseminar uma violência civil de todos os tipos, com repressão, censura, queima de livros em praça pública, exílio de opositores políticos e milhares de desaparecidos e mortos pelo regime. Uma América Latina que já se encontrava em situação crítica. A válvula de escape para certa parcela da juventude, a que não abraçava o regime de exceção, estava nas festas que avançavam pela madrugada. A subversão pop.
“Música, literatura, arte e cinema foram uma força democrática e libertadora que as ditaduras não conseguiram enxergar. É estranho que as tenham aceitado, que não as tenham censurado. A ideia de que a música pop era descartável e sem importância é fascinante”, escreve Fuguet, que retrata a realidade da sua própria juventude ao mesmo tempo em que utiliza a ficção para criar o que ela poderia ter sido. Se a sombra de Pinochet encobre os desejos de liberdade, o contraponto aparece nas festas, no cotidiano, nos segredos sexuais, pois, enquanto a censura mira intelectuais de esquerda, também ignora Madonna e a MTV.
