O primeiro semestre de 2026 termina de uma forma bem mais contida do que havia começado para o mercado brasileiro. O Ibovespa foi marcado por dois momentos no período: até 14 de abril – quando o índice bateu os 199.354 pontos, perto da barreira simbólica dos 200 mil pontos – e depois disso, quando o benchmark da Bolsa passou a ter uma queda expressiva e chegou a negociar abaixo dos 170 mil pontos.
Neste sentido, o índice fechou em queda de 1,01% em junho, a quarta baixa mensal do índice, mas ainda encerrou o primeiro semestre com avanço de 6,76%, a 172.024,12 pontos. No segundo trimestre, a baixa foi de 8,23%.
Até aquele período de abril, o Ibovespa chegou a bater 19 recordes, mesmo com a guerra do Irã que teve no início de fevereiro afetando os preços e gerando preocupações sobre inflação.
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“O primeiro semestre foi marcado por muita volatilidade, mas também por uma mudança importante na precificação dos ativos. Vimos que depois de atingir máximas, o Ibovespa sofreu uma correção expressiva, refletindo a combinação entre deterioração das expectativas fiscais domésticas, aversão global ao risco e incertezas em torno da trajetória dos juros americanos”, aponta Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
Alguns fatores explicaram essa disparada, dentre eles:
Rotação de capital global: Em meio a um cenário de crescente incerteza nos Estados Unidos e um dólar mais fraco, houve uma migração de recursos para mercados emergentes, como o Brasil, em busca de melhores oportunidades, conforme destacou a Rico Investimentos. Apenas no primeiro trimestre, de acordo com dados da Elos Ayta, houve entrada líquida de R$ 53,83 bilhões, considerando operações de IPOs e follow-ons — o melhor resultado desde o primeiro trimestre de 2022, quando o saldo havia alcançado R$ 69,02 bilhões.
Preços atrativos e fundamentos sólidos: Muitas empresas brasileiras passaram a ser negociadas a múltiplos abaixo da média histórica, mas com fundamentos microeconômicos robustos, o que despertou o interesse dos investidores.
Geopolítica. O Brasil aparecia como duplamente beneficiado pela alta do petróleo, tanto do ponto de vista macroeconômico quanto para o mercado acionário. Além disso, o país está distante dos principais focos de tensão global e possui uma economia relativamente fechada, com baixa participação das exportações no PIB, o que reduz sua vulnerabilidade a choques externos.
Real como “carry global”. A fraqueza global do dólar e o aumento dos déficits fiscais ao redor do mundo criaram ventos favoráveis adicionais, de acordo com análise de abril, no auge do ânimo com o mercado, do Bradesco BBI. O real, por sua vez, se destacou como uma das moedas mais beneficiadas desse ambiente, combinando apreciação cambial e um dos maiores “carregos” globais.
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Alta arrefeceu…
Depois do Ibovespa chegar perto dos 200 mil pontos, o índice passou a registrar sucessivas quedas, muito por conta da forte saída do capital estrangeiro.
No mês de maio, estrangeiros levaram embora R$ 14,91 bilhões da B3, na maior saída mensal de recursos desde janeiro de 2022 e superando o recorde anterior de R$ 13,21 bilhões registrado em agosto de 2023. O movimento continuou, ainda que em movimento menor: em junho até a última sexta-feira, houve retirada de R$ 8,754 bilhões por parte de estrangeiros.
O fluxo estrangeiro para ativos brasileiros, que surpreendeu no começo do ano, aconteceu em contexto no qual os mercados emergentes foram vistos como atraentes, em detrimento de ativos nos EUA. Para analistas do BB Investimentos, o movimento observado teve caráter predominantemente tático mais do que realocação estrutural no mercado brasileiro.
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Neste cenário, para a XP, a reversão do fluxo veio justamente como reflexo principalmente da volta do foco para tecnologia e para o “Trade de IA”, o que favoreceu ações dos EUA e emergentes asiáticos como Taiwan e Coreia, mas pesa sobre HALO e sobre teses ligadas a commodities, como Brasil. A sigla para High Assets, Low Obsolescence caracteriza empresas com muitos ativos físicos e baixo risco que podem ser mais resilientes em relação aos avanços da IA. A ideia “pé no chão” favoreceria antes o mercado brasileiro em um todo, mas com destaque para setores como energia, utilities e materiais.
Neste contexto, ganhou destaque a abertura de capital da SpaceX, com um forte fluxo para a abertura de capital e levando os índices S&P 500 e Nasdaq a novos recordes, enquanto houve saída de capital da Bolsa brasileira.
Fábio Murad, Sócio e Fundador da Ipê Avaliações, ressalta que o Ibovespa chega ao fim do primeiro semestre com uma leitura mista. No curto prazo, o índice mostra perda de força. Contudo, quando se amplia a janela, o desempenho ainda é positivo: o índice acumulou alta nos últimos seis e doze meses.
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Para o especialista, isso mostra que a Bolsa brasileira não perdeu totalmente sua tendência de recuperação, mas entrou em uma fase de maior seletividade, em que o investidor precisa olhar menos para o índice cheio e mais para a qualidade dos ativos que carrega na carteira.
“O primeiro semestre foi marcado por um contraste importante. De um lado, a Bolsa ainda encontrou apoio em empresas descontadas, fluxo para mercados emergentes e expectativa de melhora gradual do ambiente de juros. De outro, o investidor passou a cobrar mais clareza sobre inflação, política monetária, contas públicas e crescimento econômico. Esse tipo de cenário costuma separar companhias sólidas de empresas mais vulneráveis”, aponta.
