Em junho de 1986, Diego Maradona se eternizou na história do futebol com dois gols sobre a Inglaterra: um com a “mão de Deus” e outro driblando praticamente todo o time adversário. Não era só uma vitória de futebol, era a vingança pela guerra perdida quatro anos antes.
O palco da exibição de Maradona foi o Estádio Azteca, o único do planeta a receber jogos de três edições de Copa do Mundo.
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Desde aquele dia, há 40 anos, a Inglaterra não mais pisou no local. Para enfim voltar a ser campeã mundial, depois de tantas decepções, será necessário superar o trauma nesse campo mítico.
Poucos estádios têm status similar ao Azteca no imaginário da bola. Inaugurado em 1966, ele homenageia em seu memorial tanto “o gol do século”, o segundo de Maradona no jogo contra a Inglaterra em 1986, quanto “o jogo do século”, a semifinal entre Itália e Alemanha Ocidental em 1970.
Entre reformas e renovações, o Azteca viu Pelé e Maradona erguerem taças da Copa do Mundo, recebeu mais de 100 mil torcedores em diversas ocasiões, foi palco de shows de inúmeras atrações internacionais e abrigou até o velório de Roberto Gómez Bolaños, criador de Chaves e Chapolin.
Mas não há como falar nele sem destacar aquele 22 de junho de 1986.
O jogo entre Argentina e Inglaterra em 1986 foi um daqueles que transcenderam o futebol, porque a Guerra das Malvinas ainda estava muito fresca na memória.
Em 1982, a ditadura militar argentina, muito impopular e perdendo seus últimos apoiadores, lançou uma cartada desesperada para se manter no poder: invocar uma reivindicação nacionalista de longa data e lançar uma invasão às Malvinas, arquipélago oficialmente pertencente ao Reino Unido, que as chama de Falkland.
Como era de se esperar, os britânicos reagiram e houve um massacre. Sua poderosa marinha rapidamente esmagou os esforços argentinos, para quem sobrou apenas luto e tristeza.
A ditadura argentina caiu, e ficou o gosto amargo pelos jovens que lutaram na guerra e por não ter sido possível recuperar o arquipélago, tão importante para os argentinos. Maradona e os jogadores da seleção de 1986 eram da mesma geração que aqueles soldados, e a sensação da vitória foi como uma resposta dentro da arena que dominam mais do que a atividade bélica: o futebol.
Do lado inglês, o trauma pela derrota no Estádio Azteca foi não apenas pela fervorosa comemoração argentina, que tratou a partida como a mais importante da História, como pelo jeito como aconteceu: um gol irregular, outro tão bonito que incomodava. Agora, os ingleses devem retornar ao palco em que se tornaram coadjuvantes de uma das grandes histórias das Copas.
Mas esse retorno já está sendo marcado por reclamações de “vantagem indevida” da seleção latino-americana que vão enfrentar em 2026, o México. Afinal, o Azteca fica na capital mexicana, 2.240 metros acima do nível do mar.
Como nós, brasileiros, bem sabemos a cada vez que a seleção ou nossos clubes jogam fora de casa em países andinos, o ar rarefeito da altitude contém menos oxigênio, o que torna o desempenho muito diferente. Jogadores desacostumados se cansam mais cedo, além de serem pegos desprevenidos pela forma como a bola corre mais rápido.
Questionado se considera essa uma questão injusta, o treinador da Inglaterra, Thomas Tuchel, disse que sim, que é uma grande vantagem para o México. Na atual década, a seleção mexicana jogou 14 partidas no Estádio Azteca, com 23 gols marcados e apenas quatro sofridos. O histórico geral é ainda mais impressionante: são 89 partidas no Azteca e 70 vitórias mexicanas.
É difícil discordar, portanto, que o México tenha vantagem quando joga em sua principal casa. Mas há também um quê de arrogância nos questionamentos ingleses sobre o estádio. Como o Brasil e outras equipes sul-americanas tiveram que se adaptar ao jogo na altitude, por que a Inglaterra não pode fazer o mesmo?
Ressignificando o estádio
A vantagem para o time da casa não é algo inédito nas Copas do Mundo — a Inglaterra que o diga, tendo vencido seu único título quando sediou o torneio, em 1966. Na ocasião, por exemplo, a semifinal que disputaria contra Portugal seria jogada em Liverpool, onde o time português estava já instalado, mas foi alterada para Wembley, em Londres, obrigando os portugueses a se realocarem de última hora. Coincidência ou não, os ingleses já estavam lá desde as quartas de final.
O presidente da FIFA era então o inglês Stanley Rous, e a mudança de sede foi justificada por ele por “razões comerciais”: um estádio maior, com mais ingressos a vender e mais gente podendo comparecer. Numa época em que não havia turismo de Copa do Mundo, quem se beneficiou disso foram os torcedores ingleses.
É claro, um inglês há de argumentar que essa vantagem é menor do que o impacto da altitude. Mas e se o que a Inglaterra precisa é voltar ao local onde foi feita de coadjuvante há 40 anos para, dessa vez, ser protagonista?
Afinal, como diz a canção “Wonderwall”, do Oasis, “talvez seja você quem vai me salvar”. A música virou hino inglês nessa Copa. Se Pelé, Maradona e o Chaves já tiveram seus dias de glória no Estádio Azteca, quem sabe não chegou a vez de Harry Kane ou Jude Bellingham…
