A maior parte das novas espécies de mamíferos descritas nas últimas três décadas foi descoberta em países do Sul Global, mas os exemplares que servem de referência para a ciência continuam concentrados em instituições do Norte Global. É o que mostra um estudo publicado na revista npj Biodiversity, que analisou 1.116 espécies descritas entre 1990 e 2025.
Segundo o levantamento, 95% das novas espécies são nativas de países da América Latina, África, Ásia e Caribe. Apesar disso, cerca de 60% dos holótipos — exemplares que funcionam como referência oficial para a identificação de uma espécie — estão depositados em museus e coleções científicas de países ricos, principalmente da Europa e da América do Norte.
O estudo aponta ainda que mais de 90% dos holótipos armazenados em instituições do Norte Global foram coletados em outros países. No Sul Global, o movimento contrário é bem menos frequente: menos de 8% dos exemplares de referência pertencem a espécies coletadas fora do país onde estão depositados.
A diferença também aparece quando o fluxo é analisado a partir dos países de origem das espécies. Entre os mamíferos nativos do Norte Global descritos entre 1990 e 2025, apenas 22% tiveram seus holótipos armazenados em outro país — e, mesmo nesses casos, permaneceram em instituições do próprio Norte Global.
Brasil foge à tendência
Os autores afirmam que esse padrão evidencia a permanência de um desequilíbrio na distribuição das coleções científicas de mamíferos. Como os holótipos são a principal referência utilizada para comparar espécies e confirmar novas descobertas, sua concentração em poucos países influencia quem tem maior acesso ao material necessário para pesquisas taxonômicas.
O Brasil aparece entre as exceções do levantamento. Líder em número de novas espécies de mamíferos descritas no período analisado, o país registrou 133 descobertas, das quais 108 tiveram seus holótipos mantidos em instituições brasileiras, o equivalente a mais de 80% do total.
A situação é diferente em outros países megadiversos. Em Madagascar, por exemplo, foram descritas 90 novas espécies de mamíferos desde 1990, mas apenas 14 tiveram seus holótipos preservados no próprio país.
Ao cruzar os dados com indicadores socioeconômicos, os pesquisadores observaram que países com maior disponibilidade de especialistas, infraestrutura científica e legislação ambiental mais estruturada tendem a reter um número maior de holótipos. Segundo os autores, ampliar a capacidade de armazenamento e pesquisa nos países onde as espécies são descobertas pode reduzir esse desequilíbrio ao longo do tempo.
