Um ano sem Preta Gil: o legado que transformou o debate sobre câncer, racismo e direitos LGBTQIAPN+

Um ano sem Preta Gil: o legado que transformou o debate sobre câncer, racismo e direitos LGBTQIAPN+


Um ano após a morte de Preta Gil, completado nesta segunda-feira (20), as marcas deixadas pela cantora continuam presentes muito além da música. Ao compartilhar publicamente o tratamento contra um tumor colorretal, defender a população LGBTQIAPN+, refletir sobre o próprio processo de letramento racial e desafiar padrões de corpo impostos à indústria do entretenimento, a cantora ampliou discussões que seguem atuais. Especialistas ouvidos pelo GLOBO avaliaram por que essas contribuições permanecem vivas.
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— Há pessoas que se sobrepõem à realidade do seu tempo — disse a historiadora, apresentadora e atriz Giovanna Heliodoro, do Instagram @TransPreta, em entrevista ao GLOBO. — Preta veio com a missão de elevar a existência dela e a de outras pessoas.
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Giovanna a conheceu por meio de amigos em comum e lembra de assistir a shows, em algum canto da plateia, e ouvir da cantora, de cima do palco, frases como: “Giovanna, olha aqui meu look! E aí, estou bonita?”
— Preta me fazia sentir pertencente porque ela movimentou uma indústria, um cenário, uma comunidade. Isso impacta não só a minha vida, mas as de muitas pessoas. Ela moldou o imaginário que temos do que é ser uma mulher LGBTQIAPN+, uma mulher preta, gorda, mãe.
Imagem no primeiro disco
A construção dessa imagem passa pela capa do primeiro disco de Preta, chamado “Prêt-à porter”, lançado em 2003. Numa foto em preto e branco, a filha de Gilberto Gil, na época ministro da Cultura do governo Lula, mostrava seu corpo nu, com 68 quilos, como ela conta no livro, fora da curva do que se considerava magro por uma indústria que incutia a gordofobia na arte e no consumo. “Tenho o biotipo da mulher brasileira: coxa grossa, quadril largo”, diz Preta no livro.
— Se a gente pensar na provocação de “toda nudez será castigada”, a de Preta não passou impune — diz Angélica Ferrarez, historiadora feminista negra e pesquisadora da história social da música. — Mas ela tão dona de si, tão firme, tão segura, uma pessoa pra poder lançar logo no primeiro álbum aquela capa é alguém com muito autoconhecimento. Não estava trabalhando para crítica, estava conquistando seu público. Aliás, sua imagem sempre foi atrelada ao pop, à figura da popstar, sempre celebrizando, brindando, existindo e escancarando suas escolhas, seu corpo, suas curvas, seus desejos e sua cor.
Preta Gil em foto do encarte de seu primeiro disco, “Prêt-à Porter “, de 2003
Divulgação
Ao falar sobre a negritude de Preta, Angélica diz que estava “adorando acompanhar a evolução dela enquanto mulher negra”. O processo de letramento racial foi tema importante logo no início da autobiografia, em que ela expôs com franqueza como ignorou boa parte das discussões raciais de seu tempo e como correu atrás do que havia perdido.
— O fato de ela ter explicitado os limites que tinha com relação ao letramento racial foi de uma coragem e sabedoria incríveis — diz Angélica. — Melhor a honestidade dos que estão aprendendo que o cinismo dos que fingem saber.
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Preta comprava brigas, dentro e fora dos palcos. Em 2011, foi ao Congresso, em Brasília, defender mudança em casamento de pessoas do mesmo sexo. “Sou bissexual assumida, fui muito atacada por isso. Estou aqui como mulher, como cidadã, fazendo a minha parte e, obviamente, sendo artista e podendo emprestar a minha voz para amplificar ainda mais a voz deles todos”, disse na época.
Serviço à causa da saúde
Foi também sem hipocrisia que Preta dividiu com o Brasil sua condição de saúde, descoberta em janeiro de 2023: um câncer colorretal. Para a psicóloga e doutora em saúde pública Jeane Tavares, ela prestou um grande serviço para os adoecidos, suas famílias e a sociedade ao tratar do assunto sem espetacularização e com o compartilhamento de informações checadas.
— Colocou na ordem do dia dados e casos do terceiro tipo de câncer mais comum entre homens e mulheres no país — diz Jeane, professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e administradora do perfil @saudementalpopnegra. — Um câncer que quase não é falado por questões culturais nossas. Ânus, intestino, bolsa de colostomia são termos que não costumamos ouvir. É diferente do câncer de mama, que tem outro tipo de conotação.

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