A expectativa de vida aumentou, mas trouxe uma conta que as gerações anteriores quase não precisaram fazer: como financiar décadas a mais de vida. Fazer uma pausa para estudar, mudar de carreira aos 50, empreender depois dos 60 ou enfrentar um período sem renda exigem preparo.
Durante muito tempo, estruturar as finanças significava preparar a aposentadoria. Hoje, significa garantir recursos para sustentar uma vida que dura mais.
— Planejar-se para viver 90 ou 100 anos significa construir reservas, investir de forma consistente e criar fontes de renda que garantam qualidade de vida por décadas, especialmente diante dos custos crescentes com saúde e bem-estar — afirma o planejador financeiro Matheus Oka.
Se antes a preocupação era acumular patrimônio para a aposentadoria, agora é preciso pensar em como administrá-lo por mais tempo. Para Matheus, isso inclui diversificar investimentos, construir uma reserva de emergência e não depender exclusivamente da renda do trabalho.
Começar cedo faz diferença. Poupar regularmente, mesmo com valores pequenos, permite aproveitar os juros compostos por décadas. Adiar esse movimento, por outro lado, reduz o tempo a favor do investidor.
— O principal erro continua sendo acreditar que haverá tempo para organizar as finanças mais tarde. Viver mais exige planejamento de longo prazo — ensina o especialista.
A matemática não explica tudo
Mas lidar com dinheiro não depende apenas de matemática. Para a terapeuta financeira Suelem Nunes, essa relação começa muito antes do primeiro salário.
Num país em que educação financeira ainda ocupa pouco espaço nas escolas, a maioria das pessoas aprende a lidar com recursos dentro de casa, observando o comportamento dos pais. O jeito de gastar, poupar ou evitar determinados investimentos costuma nascer muito antes do primeiro contracheque.
— O que aprendemos sobre dinheiro vem, principalmente, do núcleo familiar. O que ouvimos dos nossos pais, as discussões que presenciamos e até os assuntos que eram evitados acabam formando nossa maneira de lidar com os recursos — aponta a terapeuta.
Esse aprendizado ajuda a explicar por que decisões sobre dinheiro nem sempre seguem a lógica. Compras impulsivas, dificuldade para economizar, relutância em reduzir custos ou receio de investir costumam refletir padrões construídos desde cedo.
Nos atendimentos, Suelem observa esse comportamento com frequência entre pessoas de diferentes idades e faixas de renda.
— As emoções costumam dirigir as decisões. A razão aparece depois, muitas vezes apenas para justificar aquilo que já foi feito.
A terapeuta explica que o dinheiro assume significados diferentes para cada pessoa. Dependendo da história de vida e das experiências familiares, pode representar segurança, liberdade ou reconhecimento. Essa percepção influencia a forma de lidar com os recursos, assim como a disposição para assumir riscos, investir ou consumir.
Os reflexos vão além da conta bancária. A incerteza permanente sobre as finanças alimenta ansiedade, estresse e dificuldade para planejar o futuro. Em contrapartida, a previsibilidade reduz a pressão cotidiana. Ter uma reserva para imprevistos e um orçamento compatível com a renda oferece mais tranquilidade diante das incertezas do cotidiano.
Na prática, estruturar o patrimônio significa criar margem para enfrentar acontecimentos inesperados sem comprometer o patrimônio. Uma doença na família, um período de desemprego, uma crise econômica ou despesas imprevistas deixam de representar uma ruptura quando existe planejamento. Com planejamento, períodos de transição podem ser atravessados com menos sobressaltos e mais estabilidade.
Quando o assunto é longevidade, a discussão costuma se voltar para alimentação, atividade física e acompanhamento médico. O planejamento das finanças recebe menos atenção, embora ajude a determinar por quanto tempo essas escolhas poderão ser mantidas.
Viver mais, afinal, não depende apenas da saúde do corpo, mas também das condições para sustentar esse tempo extra de vida.
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“Planejar-se para viver 90 ou 100 anos significa construir reservas, investir de forma consistente e criar fontes de renda que garantam qualidade de vida por décadas”
— Matheus Oka, planejador financeiro
Como se preparar para uma vida mais longa
- Comece a poupar o quanto antes, mesmo que com valores pequenos.
- Mantenha uma reserva para imprevistos.
- Diversifique as aplicações para reduzir riscos.
- Não dependa exclusivamente da renda do trabalho.
- Revise o planejamento financeiro periodicamente.
- Considere os custos crescentes com saúde e bem-estar ao longo dos anos.
- Reconheça que as emoções também influenciam as decisões sobre dinheiro.
- Planeje o patrimônio pensando em décadas, e não apenas na aposentadoria.
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“As emoções costumam dirigir as decisões. A razão aparece depois, muitas vezes apenas para justificar aquilo que já foi feito”
— Suelem Nunes, terapeuta financeira
