Depois de cinco temporadas e 21 Emmys (por enquanto), “O Urso” chegou ao fim. Os oito episódios que fecham a história estão na Disney+ e recomendo vivamente. Entre as suas muitas outras qualidades que vou esmiuçar adiante acompanhamos uma construção de personagens primorosa. O roteiro e a direção articularam técnica e emoção o tempo inteiro, num equilíbrio refinadíssimo. E, importante dizer, a incidência de truques baratos foi quase zero. Como é difícil a despedida de uma série maravilhosa. Saudades desde já.
Quando a história recomeça, uma chuva torrencial está inundando Chicago. Ela invade a tela e determina o ritmo do enredo. Reencontramos os personagens quando faltam apenas algumas horas para o primeiro serviço da noite no The Bear. Alguns já chegaram para trabalhar, como Sidney (Ayo Edebiri). A maioria ainda está se dirigindo para o restaurante. É o caso do primo Richie (Ebon Moss-Bachrach), que sofre um acidente de carro (essa cena fechou “Gary”, o episódio-surpresa exibido em maio). A ação evolui enquanto a tempestade acontece e continua depois que ela passa deixando um rastro de destruição. O restaurante está literalmente desmanchando: as infiltrações se multiplicam por todos os lados. Num ponto mais crítico da edificação, um cano explode e, em outro, o teto cede. Há um paralelo entre esses desmoronamentos e as relações humanas. A solidez dos laços é testada constantemente.
A produção trouxe uma maneira fresca de narrar uma história. No último episódio, há um diálogo importante entre Carmen (Jeremy Allen White) e Jimmy (Oliver Platt). Não vou entrar em detalhes para evitar o spoiler, mas destaco uma frase que chef disse para o tio: “Só se quebram padrões quebrando os padrões”. O protagonista usa esse truísmo para se referir ao seu futuro, mas a afirmação cairia como uma luva para falar da trama em si. “O urso” embaralhou linguagens. A direção fez suas escolhas sempre contrariando as expectativas do espectador treinado. Por exemplo, vimos situações de confinamento na cozinha em que a câmera nervosa acompanhava os atores como se fosse um reality. Só que era drama.
Na quinta temporada, a urgência em preparar o restaurante para o jantar rivalizou com as inúmeras pausas para os personagens discutirem as relações. A tensão entre a pressa e o intervalo de tempo das conversas alimentou a pulsação. Todas as tramas foram amarradas com credibilidade e emoção. O público que aprecia uma carpintaria inspirada e coerente vai mergulhar nos conflitos. O elenco central, extraordinário, brilhou. É difícil distinguir um entre tantos talentos. O nível dos coadjuvantes diz tudo também da qualidade dos protagonistas. Cito aqui só alguns deles: Liza Colón-Zayas, Jamie Lee Curtis e Bob Odenkirk.
Aposto que a série vai ganhar muitos prêmios este ano. Todos eles merecidos.
