Eleições não se decidem apenas quando eleitores mudam de voto. Muitas vezes, o eleitorado começa a se mover quando encontra razões moralmente aceitáveis para justificar uma escolha que ainda não admite. É nesse território — menos ideológico que afetivo, menos programático que moral — que o episódio com o senador Jaques Wagner deve ser compreendido.
As últimas pesquisas registraram uma inflexão relevante. Lula voltou a abrir vantagem sobre Flávio Bolsonaro, enquanto a aprovação de seu governo e de algumas políticas sociais também melhorou. A leitura mais óbvia atribui isso à comunicação oficial ou ao maior conhecimento do “pacote de bondades”. Mas os relatórios do Instituto Democracia em Xeque (DX) sugerem outra hipótese: talvez esses programas tenham passado a ser vistos com mais generosidade pelos eleitores pendulares, que precisaram reencontrar motivos para considerar Lula novamente.
Até o episódio “Dark Horse”, Flávio Bolsonaro surfava os “ventos da mudança” junto a esse público. Para eles, cansados da polarização — e sem ver grande diferença entre Lula e Bolsonaro —, Flávio oferecia a renovação. Não empolgava, mas não assustava. Um bolsonarismo menos estridente e mais moderado. O “Dark Horse” mudou isso. Diante de áudios, versões contraditórias e documentos nunca apresentados, parte desse eleitorado passou a ver Flávio como alguém sob suspeita, que fere dois mandamentos morais básicos: não mentir e não se corromper.
Quando isso acontece, o eleitor não muda automaticamente para o adversário. Procura, antes, uma justificativa para si mesmo. Políticas até então vistas com desatenção — Bolsa Família, Pé-de-Meia, Desenrola, isenção do Imposto de Renda — começaram a funcionar assim: “Não gosto de tudo em Lula, mas ele olha pelos pobres”; “Pode ter problemas, mas entrega alguma coisa”. A melhora de Lula, portanto, se daria menos por entusiasmo e mais por uma dissonância cognitiva a justificar um cálculo emocional e moral.
É aqui que entra Jaques Wagner. Análise do DX nas redes sociais mostra que a direita tentou rapidamente vincular o caso à narrativa de corrupção petista. A repercussão não foi pequena: mais de 223 mil menções em pouco mais de um dia. Mas tampouco teve a força inicial do BolsoMaster, que produzira quase o dobro nas primeiras 24 horas.
Wagner não é candidato a presidente e anunciou ontem que deixará a liderança do governo no Senado. Atinge Lula pelo risco de contaminação institucional. Se o governo sustenta que a Polícia Federal atua com autonomia, que “Quem fez, paga” e que “Lula não abafa as investigações” — como pedem os eleitores pendulares —, pode reduzir o dano da contaminação de sua candidatura. Isso contrasta com a vitimização bolsonarista e com a tentativa permanente de proteger familiares e aliados. Mas esse ativo só se mantém se houver coerência política.
Wagner deixar a liderança não é necessariamente uma confissão de culpa. O governo pode “vender” a mudança como fez Itamar Franco com Henrique Hargreaves no caso dos Anões do Orçamento: um exemplo de independência nas investigações.
O episódio revela ainda o desconforto de Flávio. Um candidato em situação normal teria se aprofundado no caso. Mas, diante do “Dark Horse”, ele buscou refúgio na segurança pública, vinculando o episódio a seu plano “Brasil sem Medo”. A direita ganhou munição, mas seu principal candidato não pode atirar sem risco de ricochete.
A questão agora é como o caso Wagner será processado pelos independentes, chamados a decidir a eleição. Será que esse eleitorado verá o episódio como “são todos iguais”, mas manterá o voto em Lula por falta de alternativa confiável? Ou mandará a fatura eleitoral ao presidente justamente quando começava a se inclinar na direção dele?
*Beto Vasques e Fabiano Garrido são diretores do Instituto Democracia em Xeque
