O fim do cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos amplia a incerteza no planeta. Depois de três semanas de indefinição desde a assinatura do frustrante “memorando de entendimento” entre os dois países, o Oriente Médio se tornou mais uma vez palco de hostilidades abertas. Em resposta a ataques iranianos a petroleiros no Estreito de Ormuz, forças americanas atingiram mais de 80 alvos no Irã, incluindo sistemas de defesa, radares e barcos. Depois dos bombardeios, bases americanas no Bahrein e no Kuwait foram atingidas.
Desde o início, parecia evidente que as premissas para o entendimento eram frágeis. O memorando extraído a fórceps de negociações tensas e inconclusivas era vago a respeito do principal — o futuro nuclear do Irã. Nem mesmo todas as concessões feitas pelos americanos foram capazes de apaziguar o regime dos aiatolás. E, de lá para cá, os vaivéns e rompantes ciclotímicos de Donald Trump só contribuíram ainda mais para aumentar as dúvidas.
O preço do barril do petróleo registrou ontem a maior alta diária desde março. A cada dia que Ormuz permanecer fechado, a conta a pagar só aumentará para todo o mundo. A desaceleração da economia global é dada como certa. Entre 2024 e 2025, o crescimento anual foi de 3,5%. Neste ano, não deverá passar de 3%, segundo a atualização do Panorama Econômico Mundial anunciada ontem pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). “A possibilidade de um novo conflito no Oriente Médio é iminente e pode prolongar a volatilidade dos preços das commodities, ameaçar ainda mais as cadeias de suprimentos, elevar os preços e pressionar as condições financeiras. A fragmentação do comércio global pode se acelerar, prejudicando potencialmente a produção e aumentando os preços”, afirma o relatório. No caso do Brasil, a previsão foi ajustada levemente para cima (ficou em 2,4%, perto da média latino-americana).
Desde que as primeiras bombas caíram sobre Teerã em fevereiro, os preços da gasolina nos postos de combustíveis subiram 30% nos países emergentes da Ásia e 15% na América Latina. Com um mercado menos integrado globalmente, o gás natural liquefeito subiu cerca de 50% na Ásia e 25% na Europa. Alavancada pelos preços de combustíveis, a inflação global disparou. A taxa anualizada subiu quase 4 pontos percentuais entre fevereiro e abril. Os efeitos negativos na expansão econômica só não são maiores porque muitos países são hoje menos dependentes da importação de petróleo, e alguns se beneficiam da expansão da inteligência artificial (IA).
O maior incentivo para Trump encontrar uma saída para o conflito é doméstico. Durante a campanha, o então candidato republicano prometeu acabar com as “guerras sem fim”. Quando a guerra começou, sua desaprovação já era superior a 55%. De lá pra cá, a avaliação positiva caiu ainda mais. Nos primeiros 535 dias do atual mandato, Trump conseguiu obter um índice de reprovação superior ao do antecessor Joe Biden no mesmo período. Com as eleições de meio de mandato em novembro cada vez mais próximas, o preço dos combustíveis é um dos melhores cabos eleitorais da oposição democrata.
