Ovacionada na Flip, Angela Davis denuncia especulação imobiliária em Paraty e convida brasileiros a celebrar vitórias

Ovacionada na Flip, Angela Davis denuncia especulação imobiliária em Paraty e convida brasileiros a celebrar vitórias


Os aplausos começaram muito antes de Angela Davis subir ao palco do Sesc Caborê, na noite deste sábado (25), para um dos eventos mais esperados da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Enquanto as 700 pessoas que conseguiram ingressos (distribuídos gratuitamente pela internet) se acomodavam, as escritoras Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves também procuravam seus lugares e foram saudadas com gritos e aplausos entusiasmados. Quando Angela Davis enfim apareceu (o evento atrasou quase meia hora), foi recebida com celebração: palmas e gritos de “I love you” e “rainha”.
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— Bom dia — respondeu a filósofa feminista americana, uma das maiores dos séculos XX e XXI e promotora do abolicionismo penal (ela está aprendendo português e depois se corrigiu dizendo que deveria ter falado “boa tarde”).
Intitulada “América e África: uma conversa atlântica”, a conversa com a americana inicialmente contaria com a presença do escritor nigeriano Wole Soyinka, o primeiro africano a vencer o Nobel de Literatura. No entanto, o autor de 92 anos cancelou sua participação por problemas de saúde. A filósofa foi entrevistada pela jornalista Flávia Oliveira, colunista do GLOBO, que elaborou perguntas inspiradas na obra de intelectuais e ativistas negros brasileiros, como Lélia González, Beatriz Nascimento, Nego Bispo, Conceição Evaristo e Marielle Franco. O evento foi transmitido em duas televisões na janela do Sesc Santa Rita, no centro histórico de Paraty (uma multidão lotou a rua) e pelo YouTube.
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Flávia Oliveira começou pedindo que a autora de “Mulheres, raça e classe” comentasse a afirmação da historiadora Beatriz Nascimento: “eu sou atlântica”, que retoma a ligação com o continente africano ao sublinhar o papel da travessia forçada dos escravizados na formação da identidade negra nas Américas.
— Uma das dificuldades de um planeta onde o capitalismo corre solto e é responsável por repressão, destruição e exploração é que não sentimos uma conexão com os outros. Quando Beatriz fala em ser “atlântica”, ela busca uma identidade mais ampla, uma definição mais ampla de quem são ela própria e seus compatriotas — disse Davis. — Crescer num lugar onde havia segregação e as piores formas de racismo me mostrou como era importante conhecer e me identificar com as lutas travadas em outras partes do mundo.
Davis também comentou a contribuição intelectual da socióloga Lélia Gonzalez, que forjou o conceito de América Ladina para ressaltar que o continente foi formado a partir das contribuições das culturas africanas, indígenas e ibéricas. A filósofa e ativista americana é uma admiradora e divulgadora de longa data da obra da brasileira.
— Lélia Gonzalez foi uma inspiração para mim. Ela pertence, em primeiro lugar, ao povo brasileiro, mas também ao mundo. Foi capaz de juntar diferentes identidades no conceito de “amefricanidade” muito antes de falarmos de ancestralidade ou interseccionalidade. Ela reconheceu que as lutas dos povos negros, onde quer que tenham acontecido, não teriam acontecido sem a ajuda dos povos indígenas — afirmou. — A crítica de Lélia ao capitalismo é algo de que precisamos desesperadamente hoje, na era do primeiro trilionário.
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Alexandre Cassiano
Ao comentar o conceito de “escrevivência”, de Conceição Evaristo, que defende uma literatura nascida da experiência cotidiana das pessoas negras, Davis apontou a influência de sua temporada na prisão em sua trajetória. Nos anos 1970, ela foi presa sob a acusação falsa de conspiração, sequestro e homicídio. Foi perseguida devido ao seu ativismo no Partido Comunista e nos Panteras Negras e correu o risco de ser condenada à morte. No mundo todo, ativistas protestavam por sua libertação.
— Por mais difícil que tenha sido a cadeia, quando olho para aquele período, vejo que foi um presente, porque o resto da minha vida foi moldado pelo que aconteceu ali, pelas trocas com as mulheres encarceradas. A maior parte do trabalho que fiz como ativista e acadêmica se relaciona, de um jeito ou de outro, com o tema da prisão e sua abolição. Dessa experiência veio a lição de que, quando as pessoas se juntam para além das fronteiras nacionais, podemos enfrentar até as figuras mais poderosas do mundo. É isso que precisamos hoje, de movimentos que impeçam que os poderosos avancem com sua agenda de fascismo e capitalismo racial.
Marielle presente
Quando a mediadora pediu que a americana falasse sobre a violência contra as mulheres negras a partir do caso de Marielle Franco, Davis afirmou não ser possível dissociar a violência íntima e doméstica daquela que é cometida por agentes do Estado, como policiais e carcereiros.
— Se vivemos numa sociedade onde a polícia pode agredir qualquer um, isso encoraja aqueles que escolhem a violência em seus relacionamentos íntimos. Marielle Franco sabia disso e por isso enfrentou a polícia militar e a violência nas comunidades. Ela entendeu a relação que havia entre essa violência e aquela que ocorre em nível individual. Essa é uma abordagem feminista e abolicionista. Obrigado, Marielle.
O público respondeu com brados de “Marielle presente”.
Davis também aproveitou o palco para contar de uma reunião que teve com ativistas paratienses e denunciar a especulação imobiliária na cidade histórica da Costa Verde.
— Prometi falar sobre a gentrificação que acontece em comunidades pobres aqui em Paraty e sobre racismo ambiental. Os jovens estão nos dizendo que temos que nos preocupar com o meio ambiente ou não haverá futuro. Empreiteiros aqui em Paraty estão tentando lucrar cada vez mais expulsando pessoas de suas terras ancestrais. Estão envenenando a terra.
A americana também se referiu às eleições no Brasil e que o desafio dos brasileiros é não eleger Flávio Bolsonaro, cujo nome ela se recusa a pronunciar.
— Há uma tradição africana que afirma que o ato de nomear dá força ao nomeado. Então eu me recuso a nomeá-lo — explicou. — Somos mais fortes do que aqueles que fingem nos governar. O fascismo está em alta nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina. Não temos consciência da nossa força porque nosso conceito de poder geralmente envolve aqueles que elegemos.
Davis também recordou outras viagens ao Brasil e disse que, quando começou a frequentar o país, não havia política de cotas e poucos negros estavam nas universidades. No entanto, outro “sistema universitário” emergiu como resultado das lutas sociais. A filósofa, então, instou os brasileiros a celebrar suas vitórias:
— Temos que celebrar nossas vitórias não porque estamos satisfeitos, mas usando-as como alavancas para continuar a luta. No Brasil, vocês estão muito bem posicionados para fazer isso.

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