
A montadora alemã Volkswagen, em plena reestruturação, informou nesta sexta-feira uma forte redução em suas vendas globais de veículos no segundo trimestre, prejudicadas pela queda acentuada nas entregas na China.
De abril a junho, o grupo, que conta com 150 linhas de modelos em suas dez marcas, vendeu 2,077 milhões de veículos, uma queda de 8,6% em relação ao mesmo período do ano anterior, após um recuo de 4% no primeiro trimestre.
Na China, seu principal mercado, as vendas despencaram 36% no período. Em outras regiões, o grupo registrou um resultado positivo, especialmente na Europa Ocidental (+1,8%) e na América do Norte (+7,7%).
Nos primeiros seis meses do ano, as vendas globais caíram 6,3% em relação ao mesmo período do ano anterior, totalizando 4,13 milhões de veículos.
O grupo, que inclui marcas como Volkswagen, Audi, Porsche, Skoda e Seat, vendeu quase 9 milhões de veículos no ano passado, dois milhões a menos do que em seus melhores anos, no início desta década.
Nesse contexto de crise, o presidente do conselho de administração, Oliver Blume, não conseguiu obter maioria, na quinta-feira, no conselho de supervisão — órgão de controle do grupo no qual estão representados funcionários e acionistas — para um plano de futuro.
Blume pretendia submeter à votação seu projeto de reorganização, batizado de “Group Target Picture”, que incluía o fechamento de quatro fábricas na Alemanha, a demissão de mais 50 mil funcionários em todo o mundo, reduzindo em até metade o número de seus modelos em fabricação.
No entanto, a montadora alemã não informou o que essas mudanças significarão para os trabalhadores, que se preparavam para grandes cortes de empregos e fechamento de fábricas.
Sindicatos reagem
Os representantes dos trabalhadores da Volkswagen prometeram combater os planos de cortes em larga escala de empregos e do fechamento de fábricas na Alemanha.
— Nós, trabalhadores, não causamos esta crise— afirmou Daniela Cavallo, presidente do poderoso conselho de trabalhadores da Volkswagen, durante um protesto na sede da empresa, em Wolfsburg, que reuniu várias centenas de funcionários. — A administração precisa fazer a sua parte, assim como os políticos, enquanto nós já demonstramos estar prontos para cumprir a nossa.
Com os lucros dimiuindo em seu maior mercado, a China, os principais executivos da montadora, liderados por Oliver Blume, defendem medidas para aumentar a competitividade da empresa. Essas iniciativas têm como foco especialmente as operações na Alemanha, onde os custos de energia e de mão de obra são elevados.
Em comunicado, a Volkswagen afirmou que a administração e o conselho de supervisão “compartilham as preocupações” em relação ao futuro do grupo. “Por isso, a administração desenvolveu um amplo plano para o futuro com o objetivo de tornar a Volkswagen e todas as suas marcas e unidades mais ágeis, mais resilientes e mais competitivas”, informou a empresa.
O IG Metall, maior sindicato da Alemanha, promoveu ontem protestos em mais de uma dezena de localidades do país, incluindo Stuttgart e Ingolstadt, onde estão sediadas as marcas Porsche e Audi, pertencentes ao grupo. Os lucros dessas marcas, que durante muito tempo foram as principais geradoras de caixa da companhia, também vêm sendo pressionados pela fraca demanda na China e pelos impactos das tarifas comerciais.
Autoridades do estado da Baixa Saxônia, que detém uma participação de 20% na Volkswagen e possui direito de veto em determinadas decisões, estariam dispostas a aprovar novos usos para as fábricas, incluindo sua utilização por empresas do setor de defesa, informou a revista Wirtschaftswoche, citando representantes do conselho.
Os líderes sindicais criticaram a administração por decisões equivocadas na condução da transição da indústria automobilística para veículos elétricos e definidos por software.
— É irresponsável brincar dessa forma com o futuro das pessoas— declarou Christiane Benner, presidente do IG Metall, durante o protesto em Wolfsburg.
Quaisquer decisões sobre novos cortes enfrentariam obstáculos internos significativos. Medidas como o fechamento de fábricas precisam da aprovação do conselho de supervisão, no qual os representantes dos trabalhadores ocupam metade das cadeiras. Sua influência é reforçada por mais dois assentos pertencentes ao estado da Baixa Saxônia, que normalmente vota ao lado dos trabalhadores.
A região abriga importantes instalações da Volkswagen, incluindo seu extenso complexo industrial e sede em Wolfsburg. Somente nessa unidade, a maior empresa industrial da Alemanha emprega cerca de 70 mil pessoas.
Os demais assentos do conselho são ocupados pela bilionária família Porsche-Piëch e pela Qatar Investment Authority.
—Sabemos que estamos vivendo uma crise— afirmou Daniela Cavallo durante a manifestação. —E ela não afeta apenas a Volkswagen, mas toda a indústria automobilística.
