O Brasil entrou na pauta. Não é sempre que nosso país, gigante em território e população mas nanico na geopolítica internacional, ocupa espaço nos principais jornais do mundo. Mas o dia do jogo contra a Escócia foi diferente, e não apenas pelo futebol. Reportagem de Fernando Kallás, companheiro de coluna aqui no GLOBO, sobre a garantia que Carlo Ancelotti deu quanto à recuperação de Neymar, dividia espaço na Reuters com a política (“Por que alguns eleitores jovens estão abandonando Lula”) e a economia (“Banco central brasileiro sinaliza alternar entre pausas e cortes para manter inflação na meta”). O braço europeu da agência de notícias tinha mais uma manchete: “União Europeia quer Brasil como parceiro estratégico na corrida por minerais críticos”. E o Guardian lembrou um evento que ainda não recebeu a devida atenção por aqui. “Para gerações futuras: Brasil trabalhando duro para garantir o sucesso da Copa do Mundo feminina de 2027”, publicou o diário inglês. Estamos com a bola toda?
Não necessariamente, se fizermos um apanhado mais extenso das manchetes sobre a participação da seleção masculina na Copa. No início da competição, a tônica era a desconfiança expressada pelo site The Athletic, braço esportivo do New York Times, após o empate contra o Marrocos na estreia: “Assim, o Brasil não é candidato”. Mesmo os elogios a Vini Jr., especialmente na Espanha, onde atua o atacante (“Seu time estava sob pressão, e ele veio ao resgate com uma daquelas jogadas que os brasileiros sempre esperam que faça”, escreveu o Mundo Deportivo, de Barcelona, cidade do grande rival do Real Madrid), eram seguidos de críticas ao desempenho coletivo. “Aqui temos um caso da estrela salvando o time”, analisou Tim Vickery, meu companheiro de bancada no Redação SporTV, na BBC.
A vitória sobre o Haiti aliviou um pouco o tom. O espanhol Marca, de Madri, usou uma expressão que tem outro sentido por aqui: “Brasil entra na dança”. A ideia, evidentemente, não era dizer que a seleção levou um baile, mas algo como “chegou para a festa”. Mesmo assim, o texto trazia um alerta, com direito a pausa dramática: “Não foi um jogo brilhante. Não. Não. Foi por causa da enorme diferença de qualidade”. Uma diferença que, diga-se, também deveria existir entre Espanha e Cabo Verde. Já o argentino Olé, em meio ao encanto pelas atuações de Messi, achou espaço para botar uma pilha: “O Brasil tinha o dever, a obrigação, a necessidade imperiosa de ganhar claramente”.
Essa divisão chegou aos jornais escoceses para apresentar a partida de ontem. Houve quem reconhecesse o favoritismo do Brasil, mas adotando um tom otimista, como o Daily Record, que (além de uma menção às queimaduras que o sol de Miami vai provocar nos torcedores de kilt, a saia para homens que é uma tradição do país) mencionou o histórico de resultados ruins de sua seleção: “Hora de a Escócia deixar o passado para trás e selar a classificação”. E a edição local do Guardian, que destaca a escalação do jovem Bem Gannon-Doak como uma estratégia do técnico Steve Clark (que tem 62 anos, idade suficiente para ter visto o empate de 1974 e as derrotas de 90 e 98) para surpreender Ancelotti: “Escócia busca se libertar das amarras contra o Brasil enquanto a história acena”.
E houve também quem tentasse ir além desse aceno, como a BBC escocesa: “Escócia pronta para o jogo de sua vida contra um Brasil falível”. A edição nacional do Sun foi mais longe, como costumam fazer os tabloides sensacionalistas: “O Brasil não é mais como antes”. Escrevi esta coluna sem saber o resultado da partida — e esperando que, depois de publicada, todo esse otimismo já tenha se tornado engraçado.
