Foi lendo uma reportagem exclusiva do New York Times, publicada pelo GLOBO, que veio a curiosidade. O jornal americano consultou documentos e reuniu depoimentos que davam conta de uma nova frente de operações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês), mudando o foco das ruas para os aeroportos.
Dezenas de pessoas sem histórico criminal estariam sendo levadas para prisões, sujeitas a possíveis deportações. A reportagem me fazia crer que o assunto tinha mais potencial a ser explorado, que havia mais história a ser contada e, com essa sensação, acabei chegando ao caso do empresário brasileiro Alex Colombini, detido pelo ICE em Boston durante a Copa do Mundo.
Colombini, que mora há 21 anos nos EUA, foi preso em 16 de julho, no Aeroporto Internacional de Boston-Logan. Ele estava a caminho de Orlando, onde mora com a esposa e três filhos, todos nascidos em solo americano. O empresário de 47 anos, dono de um jornal voltado para a comunidade brasileira em Boston, foi detido por um agente à paisana assim que passou pelo raio-x no setor de embarque. Só voltou para casa 11 dias depois. ‘Eu vi a final da Copa lá’, ele me contou.
- Leia reportagem original: Empresário brasileiro detido pelo ICE no aeroporto de Boston ficou 11 dias preso: ‘Vi a final da Copa lá’
Como cheguei a essa história
Ainda sem saber muito bem por onde seria possível desdobrar o tema a partir da reportagem do NYT, comecei a contatar advogados brasileiros com atuação nos EUA para tentar descobrir se o cenário descrito na reportagem era amplamente sentido, e se isso mudava as recomendações a eventuais clientes.
Entre um contato e outro, alguém tinha ouvido falar sobre Colombini. Com mais algumas mensagens, surgiu um número de telefone. E, no mesmo dia, consegui falar com ele.
Foi uma conversa rápida, mas o empresário não mediu tanto as palavras para descrever o que viu e sentiu, apesar de ainda estar resolvendo a situação na Justiça. A linha do tempo o fez acreditar ter sido um dos primeiros afetados pela nova forma de abordagem da agência de segurança, e ele pode estar certo.
Guardas distantes e ‘durões’
Colombini lembrava de detalhes do dia da detenção como a única mochila que levava para viajar. Ou de como pensou que o agente à paisana que o abordou estivesse fazendo uma brincadeira. Em outros momentos, parecia ainda não ter refletido sobre o que se tornou seu cotidiano.
Com uma fala acelerada, aparentemente não chegara a uma avaliação final sobre a postura dos guardas no Centro Correcional do Condado de Plymouth. Acreditava que por t os ter tratado com educação resultou em uma resposta, até certo ponto, amigável. Por outro lado, lembrou que eles mantinham distanciamento, eram “durões”.
O mesmo aconteceu quando falou sobre a comida atrás das grades. Inicialmente, ele disse que “não era boa”. Depois recalibrou, dizendo que “dava para comer” e que “não era estragada” — talvez em uma tentativa de marcar diferença da imagem que o público possa ter de uma penitenciária.
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‘Não vi nenhum criminoso’, disse o empresário
Outro ponto que chamou a atenção foi a percepção do próprio Colombini sobre as pessoas com quem conviveu nos 11 dias em que esteve preso. Descreveu todos como “gente boa”, e afirmou não ter visto nenhum criminoso — referiu-se às pessoas que conheceu como “trabalhadores” e “pais de família”. Disse achar triste que muitos possam ser deportados ou não tenham oportunidade de acesso à defesa, como ele próprio dispõe.
Encerramos a conversa perto da hora do fechamento da edição do jornal, com pouco tempo para escrever o texto. Quando nos despedimos, era possível notar uma pessoa otimista e confiante de que as coisas ficariam bem.
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O repórter que acompanha o mundo à distância
Uma particularidade no dia a dia dos repórteres que cobrem o noticiário internacional é que, muitas vezes, as fontes de informação consultadas para escrever as matérias não são primárias — aquelas que estão diretamente ligadas ao fato retratado na notícia.
Como a Terra é muito grande e os recursos são finitos, é impossível ter um repórter em todo lugar a todo momento. Além disso, para quantas pessoas Donald Trump ou Vladimir Putin telefonam, ou mandam uma mensagem, antecipando alguma decisão de Estado?
Essa característica cria uma rotina em que acompanhar as publicações de agências de notícia e jornais estrangeiros se torna uma parte vital do trabalho. É por meio de uma atenção constante a essas leituras que o repórter tenta encontrar um novo ângulo, ou uma pergunta sem resposta, para buscar uma explicação em meio ao turbilhão de informações que circulam diariamente.
Encontrar uma fonte primária como Colombini é a chance de mostrar, com nome, rosto e voz, os efeitos concretos de uma decisão que atinge milhares de pessoas, longe ou perto — um desafio mesmo para os veículos que acompanham o assunto localmente.
